9/29/2014

Queremos Autódromo!

Nesse final de semana as ruas da Barra assistiram um movimento diferente. Centenas de motos concentradas junto ao complexo de piscinas Maria Lenk ao lado de onde fora outrora o nosso querido autódromo.

Sua missão? Protestar e reivindicar um novo autódromo para a cidade, sensibilizar as autoridades municipais para que se retome o diálogo, e principalmente, as obras pelo novo autódromo.

Não pude estar presente, mas amigos que estiveram no local testemunharam a grande concentração e carreata que se seguiu, escoltada pela polícia e com autorização da PM, o que me fez lembrar das grandes carreatas que realizamos anos atrás, mas dessa vez foi um pouco diferente, não haviam carros, só motos.

Porque a comunidade automobilística do Rio de Janeiro não compareceu em peso? Será que estão satisfeitos com os rumos tomados? Estão conformados com a situação e vão esperar sentados por um desfecho favorável, seja ele qual for?

Não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas, de defensores pelo autódromo se tornaram submissos, mudos enfim. Os motociclistas pelo menos estão se mostrando mais unidos e pró-ativos, todos aqueles que defendem o esporte a motor deveriam se juntar a eles para exigir mais celeridade nas decisões sobre o novo autódromo.

Desejo toda a sorte do mundo ao movimento, apesar de ter sido pioneiro na defesa do nosso autódromo, não sou dono da verdade nem de coisa nenhuma, só deixo aqui alguns conselhos:

Primeiro, não esperem diálogo desse prefeito ou de qualquer pessoa ligada ao atual governo municipal , a prioridade deles serão os Jogos, depois disso virão as eleições e com qualquer resultado será um novo prefeito que irá governar uma cidade endividada e falida, haverão muitas outras prioridades do que construir uma pista de corridas, por mais financeiramente atraente que seja.

Segundo, tentem contato com o novo governador assim que este for empossado e tentem uma audiência para pedir um terreno fora da cidade do Rio de Janeiro, é muito mais interessante uma pista fora de uma grande cidade, onde o solo urbano é muito mais caro.

O ideal seria uma fazenda próxima a uma rodovia, onde em troca da concessão de exploração de serviços de hotelaria e alimentação uma empreiteira construisse a pista para ser gerenciada por particulares, não é difícil, o problema é que o empresariado brasileiro não se sente atraído por este tipo de investimento, então infelizmente ficamos relegados ao interesse dos governos em investir nessa ou naquela proposta.

Algumas cidades construiram autódromos, como Santa Cruz do Sul, outras os recuperaram, como Cascavel e Goiania, mas o Brasil é muito grande para tão poucas pistas, e a cultura automobilística ainda é forte em muitas regiões e merece ser prestigiada e incentivada.

Alguns sinais aqui e ali apontam para uma futura revitalização do automobilismo brasileiro, a volta do Kartódromo Premium (com outro nome é claro) ao lado do Shopping Via Parque é um alento para quem tinha que ir até Guapimirim para correr de kart numa pista de asfalto em vez de indoor, e também temos o lançamento do projeto Old Stock Race, uma categoria vintage,com os Opalas que formaram a primeira geração de pilotos da Stock Car, iniciativa de veteranos como Paulo Gomes, que é conselheiro da CBA, a categoria poderá lançar uma nova luz nos eventos automobilísticos brasileiros, que é a diversão profissional, e de quebra atrair o público para ver como se corria numa época sem ABS, cambio sequencial e auxílios eletrônicos, o preço por temporada me parece salgado, 150 mil reais, por muito menos se corre na Classic paulista, mas de qualquer forma é uma iniciativa louvável.

De resto fica o alerta do desmonte e desmoralização gradativa do autódromo de Interlagos, que agora sediará bailes funk, como se não bastassem as missas campais e outros eventos estranhos ao automobilismo, em suma, a prefeitura paulista usa as mesmas armas que a carioca usou no passado: abandono, desmoralização, desprestígio, depredação e demolição do patrimônio público, provavelmente em um futuro breve declarem a incapacidade de mantê-lo já que aparentemente a única coisa que o sustenta é o contrato com a F1, renovado em troca de obras de adequação.

Já a MotoGP cancelou a prova de Brasília, como esperado a prefeitura do Distrito Federal não apresentou garantias para a realização da prova, que consistiam em obras para modernizar o circuito (que ainda tem o mesmo asfalto de sua inauguração, em 1974) , e mais uma vez caem no vazio as promessas feitas no início do ano.

Enfim, nada mudou, esse ano já se encaminha para o último trimestre e pouco temos a comemorar, resta esperar que 2015, um ano sem grandes eventos nem calendário eleitoral, seja mais produtivo que este.

O cenário atual é incerto, a mudança no automobilismo brasileiro tem que vir para se melhorar o diálogo com as autoridades e com os investidores, para que o esporte a motor seja respeitado não só pela sua história, mas também pela sua capacidade de gerar renda, esporte este que é o segundo mais assistido no país, ultrapassando todos os demais, menos o futebol.

Para quem quiser saber mais sobre o movimento "Queremos autódromo!" segue o link da página deles no facebook:
https://www.facebook.com/pages/Queremos-Aut%C3%B3dromo-RJ/888920241134551

Nos vemos na pista

7/13/2014

A Copa acabou, e agora?

Bem amigos, escrevo ainda sobre as cinzas quentes da final da Copa, ainda temos torcedores de vários países perambulando pela cidade, escuto o barulho de helicópteros e sirenes, aos poucos a cidade vai retornando a sua vida normal depois do ápice de 4 anos de espera por este momento, só que acabou, e com ele vem as perguntas: E agora? O que faremos?

Desde 2008, um ano após o final dos Jogos Panamericanos, quando percebemos que a vendetta contra o autódromo não cessaria apenas com a mutilação do lado norte, que a reforma da pista ainda dependia da candidatura olímpica brasileira ser aceita ou não, percebi que estávamos lidando com pessoas sem compromisso com o que estava escrito, todos eles, nenhum estava disposto a cobrar ou atender o que conquistamos depois de muita luta, carreatas, processos, enfim demos o resultado do nosso esforço na mão de quem não fez por onde merecer essa responsabilidade.

Passamos os últimos seis anos ouvindo as teorias mais estúpidas a respeito dos grandes eventos que estavam por vir, o país se comprometeu seriamente com a realização da Copa, e tarde demais percebeu que isso era apenas um negócio de europeus, feito para europeus, nada mais. O fato de estarmos realizando a Copa era apenas uma mera formalidade, poderia ser aqui como em qualquer lugar do mundo, como será em 2018, 2022 e por aí vai.

Voltando ao nosso problema, vivemos o seguinte dilema: estamos indo para dois anos sem autódromo e sem nenhuma possibilidade de tê-lo antes de 2017, data em que se encerra a construção do complexo olímpico, aí, quem sabe, alguém tira a poeira do projeto do autódromo da cidade do Rio de Janeiro e o põe em prática.

Mas não seria tarde demais?

Já é tarde, perdemos o bonde da história, aliás estamos perdendo desde dos anos 90, quando da morte do Senna, dizem que depois disso o automobilismo brasileiro morreu, o que não é verdade, ele perdeu a vontade de viver, de lutar, de existir, entregou sua existência a mercadores de ilusão em vez de trabalhar em prol daquilo que o fez grande.

Muito se fala, e ainda se falará, do fato de termos realizado a Copa sem ter vencido em nosso país, para apagar o fantasma de um passado de 64 anos, mas isso não é importante, em 2006 a Alemanha perdeu uma Copa em casa, em plena era da comunicação cibernética, em pleno coração da Europa, com um time forte, mas perdeu, e o que eles fizeram?

Valorizaram a base, foram buscar novos valores e mantê-los em seu país, se olharmos a nossa seleção canarinho ela foi quase que totalmente formada por jogadores que jogam lá foram, ganham em euro e falam outra língua, vestiram a  camisa da seleção como se fosse a de um time qualquer, não se deixem iludir pelas lágrimas e declarações melosas, aquilo que estava em campo não representava nosso país, apenas os interesses financeiros de seus patrocinadores, nada mais.

Assim anda nosso automobilismo, matamos nossas categorias de base, o kartismo virou um negócio de elite, as categorias de turismo ainda sobrevivem, já as ditas top, só com muito lastro financeiro, afinal de contas quem pode correr de carro hoje em dia?

Muito se fala em profissionalismo, tanto no futebol quanto no automobilismo, a partir do momento que isso aconteceu esses esportes começaram a definhar, se no futebol vemos garotos de doze anos sendo levados por empresários para o exterior no automobilismo acontece algo similar mas por motivos diferentes: não temos pistas, nem equipamentos, os que tem são caros, para competir se exige muito e se dá em troca muito pouco.

Toda essa introdução nos leva ao motivo crucial que passamos esse momento: a cidade do Rio de Janeiro merece ou precisa de um autódromo?

De 2004 pra cá assistimos a uma absurda valorização do metro quadrado em toda a cidade, mesmo nas regiões mais afastadas, onde seria mais barato temos o problema da insegurança e dificuldade de acesso, tínhamos um autódromo quase que perfeito, mas que a prefeitura sabotou aos poucos, primeiro ferindo o código de construção da área, permitindo o adensamento em torno do autódromo, gerando problemas operacionais devido ao barulho e movimentação do público nos dias de grandes eventos, não bastou perdermos a F1 no final dos anos 90, ainda tivemos o trabalho de reconstruir a pista para a MotoGP e a F-Indy para ver o então prefeito Cesar Maia jogar todo esse trabalho pela janela, culminando com o vexame internacional de barrar Charles Witting no portão 7 quando ele vinha fazer uma inspeção de rotina para a FIA.

Não bastava não termos mais o maior campeão mundial de F1, com o passar dos anos vimos seus recordes serem pulverizados pelas nova gerações de pilotos europeus sem que conseguíssemos colocar lá fora um único piloto à altura desse desafio, negócio de europeus? Sim. Mas no mercado interno esses fracassos foram minando o nosso esporte a motor, as pessoas foram perdendo o interesse, sem público os patrocinadores se foram, em nome da "economia de escala" se criaram catergorias que antes de tudo eram mais caras do que as lhe antecederam, tudo em nome do profissionalismo.

Com isso, o cenário de cobrança de um novo autódromo, se esvai, copiando um mote muito ouvido nos últimos anos: Autódromo pra quem? Não adiantar dizer que eles "nos devem", eles devem muito para o povo brasileiro: escolas, hospitais, saneamento, transporte, um autódromo se torna irrelevante diante da realidade em que vivemos

Mas quem vai usar um autódromo no atual estado da arte que vivemos? Se houvesse realmente uma demanda para um novo autódromo, e se ele fosse realmente rentável dentro da realidade do automobilismo brasileiro, teríamos pistas brotando do chão como brotaram estádios para a Copa, mas não é assim.

Primeiro porque temos uma legislação esportiva atrasada, baseada em uma hierarquia de federações e confederações que remonta aos tempos da ditadura militar, e que dela herdou o ranço autoritário e arbitrtário sobre o esporte, não só sobre o automobilismo, basta ver os outros esportes, todos com suas constelações de chefes, diretores e delegados, mandando e desmandando sobre aquilo que deveria ser lúdico mas acaba se tornando obrigação e fastio.

Devemos viver fora da lei? Claro que não, o conjunto de regras que rege a sociedade está ali para nos proteger principalmente dos mal-feitos de nós mesmos, nada mais, no automobilismo elas são o resultados de décadas de erros e acertos realizados nas competições esportivas ao longo do tempo. Saímos de pistas perigossíssimas para pistas hiper-seguras, melhor exemplo temos da pista de Termas de Rio Hondo, na Argentina, que foi projetada a partir de estudos de mais de 1500 acidentes em autódromos de todo mundo para se chegar a um traçado ideal, tão bom que logo de cara recebeu a homologação FIM e sediou o evento argentino da MotoGP deste ano, evento que acontecia aqui no nosso autódromo de Jacarepaguá igualmente seguro e homologado pelas mesmas regras.

Com o atual nível de exigencia das competições automobilísticas como construir um autódromo que as atenda? Dentro da cidade do Rio de Janeiro? Como? Já tentou várias hipóteses, até mesmo voltar para o mesmo lugar onde estava antes da demolição, tudo idéia, de prático nada, se pensou em procurar cidades vizinhas, sensibilizar algum prefeito, mas ninguém se interessa, nem mesmo a título de pergunta, um autódromo serve para nada, segundo eles.

Volto com a pergunta: A quem interessa um autódromo no Rio de janeiro HOJE?

Eu gostaria de ter essa resposta, mas não tenho, sei de gente que precisa, mas somos poucos, éramos muitos há dez anos, mas agora sobraram apenas os sobreviventes, aqueles não buscaram abrigos em outras praças esportivas ou largaram tudo de mão.

Hoje onde era o autódromo é apenas pó e lama, quem sabe daqui a dois anos se transforme uma bonita praça pra inglês (e o resto do mundo) ver, assim como foi a Copa, enquanto que as imagens do passado, são apenas isso, imagens.

Porquê isso não acontece lá fora?Assisti uma corrida da MotoGP em Assem, na Holanda, prova que acontece nessa pista a mais de 50 anos, e o entorno da pista é virgem, sem edificações, ontem (sábado) passou a prova da F-Indy em Iowa, igual cenário, nada em volta, só tinha mesmo uma pista de pouso ao lado.

A resposta para a durabilidade e permanência dos autódromos se resume a duas afirmações: Tem que ser longe de grandes centros - onde o solo é muito valorizado - , e ser particular, pelo menos aqui no Brasil tem que ser para garantir um mínimo de independência para uma operação autonoma sem ingerências políticas.

O caminho para um novo autódromo no Estado do Rio de Janeiro é esse: Um bom lote de uns 500 mil metros quadrados de terra plana ou semi, particular, e longe de qualquer cidade cidade grande, perde-se o glamour mas ganha-se na garantia que a pista continuará lá.

Tínhamos uma pista perfeita, já escrevi aqui isso, e a comunidade automobilística carioca e fluminense não foi capaz de conservá-la ou garantir-lhe um substituto à altura, e agora às vésperas da eleição para governador vir cobrar um novo autódromo das autoridades políticas, depois de uma orgia de 30 bilhões de reais com a Copa é completa perda de tempo, antes tivéssemos construído um particular em algum lugar do interior do estado.

Não deve ser difícil, lá no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul o automobilismo sobrevive com pista de terra, ninguém quer ser um novo Senna ou Schumacher, quer apenas se divertir, não se matar é claro, por isso seguem as regras de segurança, mas isso não quer dizer que precisam gastar uma montanha de dinheiro a cada corrida.

A idéia está lançada há tempos, tempos atrás um amigo conseguiu por alguns meses um terreno em Seropédica onde construiu uma pista improvisada, terraplanada por uma patrol pilotada por ele mesmo, deu certo dentro do possível, poderia ter sido o início de algo grande, que poderia ter nos livrado da dependência de um autódromo permanente e público.

Mas sempre há tempo para recomeçar, é só pensar fora da caixa, parar de usar as mesmas fórmulas encardidas, estamos aqui hoje como resultado de ter acreditado em mentiras e fantasias, agora elas se foram, vamos esperar novas para continuar nos iludindo ou vamos tomar a frente do que é nosso e não depende de ninguém?

O desafio está dado, quem quiser que o tome para o bem de todos, para o bem do automobilismo brasileiro.

Nos vemos na pista.


4/21/2014

Em algum lugar no passado

O post de hoje vai em homenagem ao Luciano do Valle, aquele que não deixou o país viver na monocultura do futebol, além de promover inúmeros esportes, para nós, entusiastas do automobilismo, ele foi especial porque por suas mãos e por sua voz os brasileiros aprenderam a gostar da F-Indy, aquela "estranha" categoria que andava em circulos em alta velocidade, deu tão certo que conseguimos até realizar uma prova e ter uma pista oval, a única homologada, pelo que eu sei, pela CART na América do Sul.


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4/05/2014

Resumo geral

Fazia um tempo que não passava por aqui para dar uma atualizada, mas também, depois de um ano de autódromo fechado e destruído só me restou assistir aos acontecimentos, e agora vou passar para vocês um resumo da história de janeiro deste ano pra cá, nada novo que ninguém não tenha visto, mas para quem sempre passou por aqui em busca de novidades. Não custa manter isso aqui minimamente atualizado em respeito aos meus leitores.

Primeiro de tudo, sem ordem cronológica vamos à reeleição do atual presidente da FAERJ, não vocês não leram errado, reelegeram a mesma pessoa, de novo, nem sei mais quantos mandatos consecutivos ele tem, e nem me interessa saber, afinal de contas uma entidade que fiscaliza o automobilismo e que deixou escapar das mãos um autódromo de nível internacional não merece nada além de uma nota de pé de página mesmo.

Continuando, um assunto quente, a saída da presidente da EOM depois de um encontro difícil com os representantes do COI agora em março. A entidade passa a ser dirigida por um funcionário público de carreira, como foi no início do ano a contraparte federal do projeto olímpico, ex-banqueiro Marcio Fortes, que também deixou o cargo, e em seu lugar entrou um general que já andou enquadrando o presidente do COB, mas que parece que ficou nisso mesmo, por enquanto.

Já este, o do COB, está em suspeita de ter participado de um escândalo envolvendo a CBV, da qual ele foi presidente e de lá se alavancou para o palco olímpico, considerando as últimas derrapadas do comitê organizador, sua cabeça deverá estar a prêmio em breve, aguardemos.

Já terreno do ex-autódromo atualmente não passa de um canteiro de obras parado, segundo relatos o trabalho segue em marcha-lenta, com longos períodos de interrupção, agora o objetivo é remover os moradores da Vila Autódromo, e pelo projeto que soltaram (mais um) a remoção deverá ser total e não apenas parcial como se previa antes.


Inclusive, se observarmos bem, os equipamentos foram novamente realocados para o centro do terreno deixando as margens (mais valorizadas) vazias, sendo que agora o projeto imobiliário corresponde a quase 70% da área.

Um dos pontos de atrito da prefeitura com o COI foi a questão do "quem vai pagar  a conta", porque ao contrário da Copa, em que rios de dinheiro correram para o bolso das empreiteiras, a olimpíada está tendo de procurar parceiros, e a cada dia que a Copa está se revelando um fracasso financeiro e de imagem institucional, mais difícil fica a situação de vender a olimpíada, a situação internacional não ajuda, Sochi como se previa foi um fiasco, a Rússia está sofrendo sanções internacionais por conta da anexação da Criméia (que século estamos mesmo???), e há uma forte possibilidade de boicote de algum país na Copa, eu não me surpreenderia.

A verdade é teve gente que se vendeu por muito mais do que podia pagar e agora não consegue entregar o produto do roubo, ou vocês acham que as construtoras estão felizes em receber um terreno lamacento que não tem 10 metros de profundidade de solo firme para construir os espigões que eles pagaram tão caro para DOIS prefeitos mudarem a legislação de uso do solo da região, mudando até mesmo a localização de bairro?

A hora de verdade está chegando, isso eles não querem admitir, mas a vitória deles teve um gosto amargo, ficamos sem o autódromo é verdade, mas a vida segue, precisamos de outro, mas ele virá, um dia, e se não vier é porque o automobilismo carioca e brasileiro não merece tê-lo, até porque muitos dos que choram hoje com a falta dele não ajudaram a pressionar a FAERJ e a CBA quando deviam, aliás, sinto que existe um consentimento silencioso com tudo isso, afinal de contas são todos homens de negócios, e o fim do autódromo foi apenas mais um negócio como todos os outros.

Mas o que me espanta é como é que alguém pega um equipamento esportivo caríssimo, altamente agregador de valor (palavrinha da moda) para a cidade, e destrói sem mais nem menos para oferecer mais imóveis numa região já saturada de lançamentos imobiliários que sequer foram totalmente vendidos? Será que não existe punição para incompetência ou é apenas mais um fato consumado?

Outra coisa que já falei exaustivamente e não entendo é porque esses caras ricos, empresários, capazes de gastar uns 300 mil reais num carro esportivo pra ficar correndo da PRF na BR-040 no final de semana, não se juntaram ainda pra fazer uma pista particular? É tão caro assim ou todo mundo é só rico de fachada e fica mamando na teta do governo quando o assunto é ir brincar de carrinho?

A verdade, meus caros, é que a morte do autódromo de Jacarepaguá criou um enorme cadáver insepulto, e a cada dia que passa, que eles tentam esconder o crime, mais ele aparece, até o momento que não haverá mais dinheiro para pagar para mantê-lo escondido, então só restará admitir o erro, mas daí a devolver o terreno para reconstruir a pista tenho minhas dúvidas, até porque as empreiteiras já estão com as garras em cima, a menos que elas tenham seus bens arrestados para pagar o prejuízo que causaram ao patrimônio público, mas aí eu lembro que estou no Brasil, país onde o juiz vota o seu próprio aumento de salário... não, pera.

Minha opinião é de que o governo não devia se meter nisso, no Brasil se tem o péssimo hábito de misturar o dinheiro público com coisas de cunho privado, e o automobilismo é uma delas, o país não tem que financiar ida de ninguém pro exterior correr com as cores do banco estatal, muito menos "estimular" o esporte dando isenções fiscais à empresas para investirem milhares de reais em eventos nababescos. Se alguém quer correr, que corra com seu dinheiro, pagando o uso da pista seja ela pública ou privada, cabe ao estado cumprir com obrigações mais nobres para uma população de 200 milhões de habitantes, dois quais mais de 70% ganham menos de 2 mil reais por mês, e não são só autódromos, tem estádios, piscinas, quadras, centros desportivos, tudo caríssimo, pago com dinheiro do povo para usufruto de alguns poucos "privilegiados".

Automobilismo é coisa simples, vai lá no Sul ver como os caras correm nas pistas de terra batida, ninguém ali tem financiamento de lei de incentivo ao esporte, muito menos equipamento importado ou sofisticado, ali é vontade de acelerar e se divertir, motivo único pelo qual o automobilismo faz sentido, qualquer coisa fora disso é se aproveitar do suor alheio para ficar rico.

Sigamos o exemplo dos nossos amigos gaúchos, catarinenses e paranaenses, vamos construir um novo automobilismo dentro das nossas possibilidades reais, deixem pra lá essa história de herói de capacete e sapatilha, o Ayrton morreu já faz 20 anos, mas as carpideiras continuam por aí chorando o defunto, aquilo foi um fim de uma era, agora é hora de nos reinventarmos, e se esse novo caminho passar longe do que é convencionado como "profissional", que mal tem? Vai cair a mão se não sentar a bunda numa Ferrari? Vai se sentir menos motivado se não tiver um camarote com ar condicionado e cascata de camarão pros convidados?

Quer saber, tem é muito coxinha no automobilismo brasileiro, gente que não tem identificação com o esporte, que está por conta do ego ou porque papai assinou o cheque, tem gente que se estivesse lá fora estaria andando bem numa categoria internacional, mas prefere ficar aqui debaixo do holofote da TV  se sentindo "celebridade" porque aparece quinze segundos nos holofotes do programa de esporte dominical.

É isso, um post cheio de rancor, mágoa e sem nenhum motivo para estar feliz, o automobilismo brasileiro virou um balcão de negócios, o que não é ruim porque é disso que ele sempre viveu, mas usando dinheiro público seja direta ou indiretamente e isso é péssimo, onde se gasta o que não se sabe de onde vem se transforma em uma coisa sem sentido, e é nisso que o automobilismo brasileiro se transformou, ele não leva ninguém a lugar algum, os pilotos ficam ali anos e anos sem mudar, sem evoluir, só injetando dinheiro nas mesmas categorias que sufocam todo o resto.

Pra terminar um aviso: vai piorar.




12/13/2013

Improviso e descaso

Hoje é um dia triste para falar de automobilismo, morreu em Londrina durante os treinos para os 500Km o piloto Robson Kolling de 35 anos, ele estava no comando de um protótipo Grupo I, os mais velozes que competem no campeonato de endurance, quando bateu violentamente contra o guard-rail no final da reta. As primeiras informações falam de mal súbito, pois o carro bateu de frente no muro, mas alguns relatos dizem que ele pegou uma zebra e perdeu o controle do carro.

Enfim, não se trata do porquê ele perdeu o controle e bateu, triste é saber que nem toda a proteção do carro ou do piloto, e até mesmo da pista, não foram capazes de impedir o óbito, o que mostra que no automobilismo de competição não há espaço para o acaso, que o "se" quando acontece pode ter consequências devastadoras.

Mas porque estou falando da morte de um piloto em Londrina quando o blog fala da pista do Rio de Janeiro? É por causa da imagem abaixo:

Isso é a proposta de traçado para a corrida de Formula E no Rio de Janeiro, de autoria do piloto Lucas Di Grassi, que também deu consultoria no traçado da pista do complexo Beto Carrero em Santa Catarina.

O problema desse traçado não é um, são vários, a começar pelo pesadelo logístico que vai ser fechar o acesso para a Zona Sul a partir do Centro, pois ele usa tanto as pistas do parque como as junto ao prédio, o que demonstra que ele não conhece o local muito menos as características de tráfego, aliás, o próprio piloto admite que usou o aplicativo Google Earth para desenhar o circuito, ou seja, assim é fácil, até eu faço.

Aí entra outro problema: As pistas do Aterro não foram desenhadas para carros em alta velocidade, elas tem uma característica inclinação nas bordas para facilitar o escoamento da chuva, para modificar isso teria que se arrancar todo o asfalto e nivelar a pista, o que no atual estado de calamidade que se encontra a nossa cidade no tocante ao transito é praticamente impossível, só de pensar em fechar o Aterro por dias seguidos já seria motivo para engarrafamentos bíblicos.

As ruas junto aos prédios também não tem um asfalto liso, pelo contrário, em alguns trechos teria que se retificar bueiros e corrigir imperfeições enormes, tudo é claro, se conseguirem desviar o transito.

O pior de tudo isso é o piloto/consultor dizer que a pista ficaria à disposição de outras categorias. Que categorias? F-Truck? Stock-Car? a única categoria que até hoje ousou correr em pista de rua no Brasil foi a F-3 nos seus áureos tempos, mesmo assim eram circuitos precários de segurança.

Dizer que "isso" serviria para um Stock-Car competir me dá arrepios, imaginem um carro de uma tonelada e meia desgovernado naquela longa curva em frente ao Monumento dos Pracinhas, e não venham me falar da pista do CAB em Salvador ou Ribeirão Preto, aquilo não pode ser chamado de pista, está mais para desfile onde só cabe um carro por vez em alguns pontos da pista, no Aterro não, são 4 pistas largas, o que possibilitaria duelos com carros lado a lado em alta velocidade, uma temeridade, considerando que o público ficaria relativamente perto, pois não existem espaços fora do traçado, a menos que se construam arquibancadas junto aos prédios ou sobre os jardins do Parque, e mesmo assim limitaria a visão do público por em alguns pontos, sem falar do acesso dos boxes, áreas vip, em suma inviável.

Agora voltando ao triste acidente em Londrina, o impacto do carro no guard-rail se deu em torno de 200Km/h, a que velocidade vocês acham que chega um F-E?

Esqueçam tudo o que vocês sabem de carros elétricos, os F-E são monopostos iguais a um carro de corrida com motor a explosão, o que muda é apenas o motor e bateria, a caixa de câmbio sequencial está lá, assim como os aerofólios para gerar downforce e os pneus slick para gerar altas cargas de força G nas curvas, apenas não fazem barulho de motor, mas sim um zumbido alto e irritante dos dentes retos da caixa de marcha e do motor elétrico em altíssima rotação.

Ou seja, o cenário está montado, uma pista de rua improvisada, carros passando em alta velocidade, provavelmente o público perto - claro pois os carros não fazem barulho, logo são "inofensivos" - basta uma ondulação mal consertada, uma manobra errada (monopostos adoram enroscar rodas um com o outro e sair voando) e teremos um acidente espetacular no cartão-postal da cidade, será que precisamos disso?

Como disse antes, irresponsabilidade, descaso, desconhecimento, despreparo, tudo isso junto pode provocar um acidente, o caso de Londrina ainda tem que ser analisado para se saber as causas, mas serve de alerta para lembrar aos organizadores/promotores/dirigentes que com automobilismo não se brinca, é uma coisa perigosa, e os F-E são tão perigosos quanto qualquer outro carro de corrida fora de seu elemento, que é uma pista de corrida de verdade e não um autorama de exibição no meio de prédios e calçadas com postes e árvores.

Não é de hoje que tentam vender o Aterro como pista de corrida em substituição ao Autódromo de Jacarepaguá, a CBA já rasgou seu regulamento quando autorizou a construção de uma pista de rua em São Paulo quando já tinham Interlagos, resta agora saber se o Ministério Público, o IPHAN e os defensores do parque do Flamengo vão fazer com relação a isso, porque se depender do prefeito, amanhã já estarão montando os guard-rails, porque o negócio é vender a cidade a todo custo.

Mas talvez esse seja um custo que ele não possa pagar.

Update:
Para quem não conhece ou não lembra, um exemplo do que uma pista improvisada pode fazer, Montjuic - Barcelona, 1975:
http://continental-circus.blogspot.com.br/2007/04/gp-memria-espanha-1975.html


12/11/2013

Não foi por falta de aviso

Quem me acompanha desde 2006 sabe que sempre falei a respeito do solo do autódromo não ser adequado para obras de grande porte, visto que 2/3 do terreno de um milhão de metros quadrados foi fruto de aterro hidráulico por quase três anos seguidos, por isso não me surpreendem as fotos que me foram enviadas hoje, dia 11/12/2013, em que mostram o terreno totalmente encharcado, melhor, inundado mesmo, sendo que agora, final da tarde, me chega a notícia que estão quebrando o muro nos fundos do autódromo numa tentativa desesperada de escoar a água represada lá dentro.

E pensar que quando o autódromo existia ele nunca inundou, fosse qual fosse a chuva, porque existia um conjunto de canais de drenagem que levava o excesso de água pra fora da pista, além dos dois pontos baixos onde a água se acumulava e depois podia escoar naturalmente.

Vejam as fotos tiradas essa manhã:


 E acabou de chegar a foto do consórcio abrindo caminho para a água escoar.

Acho que neste momento as construtoras devem estar pensando seriamente em carnear o sujeito que deu a brilhante idéia de premiar as construtoras com o esbulho do terreno do autódromo em pagamento pela construção do Parque Olímpico, pois a essa altura não só a obra do equipamento está comprometida como também o futuro do empreendimento imobiliário, pois onde se pretendia construir 30 prédios de mais de 20 andares, dificilmente se construirão 4 ou 5 devido à necessidade de estabilização do solo, tarefa praticamente impossível, pois o local fica entre dois rios, sendo uma várzea inundável, como sempre foi e sempre será.

Aí, como fica o retorno financeiro do empreendimento, já que o custo da obra do Parque Olímpico dificilmente seria pago por  4 ou 5 prédios, que provavelmente não cobrem nem 15% da obra, seria o momento de declararem que é impossível construir no local e devolverem pra prefeitura?

Não foi por falta de aviso, se quiserem, aceitamos o terreno de volta e reconstruimos o autódromo, é só descerem do salto alto (enterrado na lama) e admitir que fizeram besteira. Sobre quem vai pagar o prejuízo, nós já sabemos, resta saber se vai ser com ou sem a pele do corpo.

12/05/2013

Formula E no Rio

Olá amigos, como não temos mais autódromo não tenho tido muito o que falar aqui, apesar de que assunto até existe, mas não considero relevante.

Poderia falar do quase desaparecimento total do automobilismo carioca, que se viu exilado em terras mineiras e que pouco ou nada se fala na mídia.

Ou então das obras do Parque Olímpico, um poço de lodo e incompetencia em que as construtoras estão enterrando milhões de dinheiro público para uma obra inútil.

Mas o que me trouxe hoje é o anúncio oficial da Formula E (de Elétrico) no Rio de Janeiro, matéria que recebi através de um atento leitor do blog.

Lembram que falei tempos atrás que o grande sonho da F1 era fazer uma corrida no cartão-postal da cidade?  No caso o Aterro com o Pão-de-açucar ao fundo, o evento da Ferrari serviu para isso, apesar da lambança a FIA aprovou o "circuito" e agora o Rio está oficialmente escalado para sediar uma etapa ano que vem.

2014 será um ano difícil, Copa do Mundo indo pro brejo (o que não quer dizer que não será realizada, ainda), reeleição indo pro brejo (essa vai mesmo)  e ainda por cima inventam de fazer uma corrida de carro no Aterro (como se o IPHAN e a associação de preservação do Parque fossem deixar), e ainda tem os jogos de 2016 (indo celeremente para o brejo, aliás, está instalado em um, onde era o autódromo de Jacarepaguá).

Deixo a notícia abaixo com o link e vamos aguardar maiores esclarecimentos de como será essa bagaça:

Rio de Janeiro replaces Hong Kong for 2014/15 Formula E season

Wednesday, December 4th 2013, 16:34 GMT

The FIA approved the final schedule for the 2014/5 all-electric series at its World Motor Sport Council meeting on Wednesday.
Rio was one of the cities originally earmarked for a Formula E race, but it did not make the cut when the provisional calendar was published in September.

It has now made it back in, taking Hong Kong's place as round three of the street track-based series.

Formula E kicks off in Beijing in September next year. It features a round in Monte Carlo a fortnight before the Formula 1 race, and will also visit London for the season finale in June 2015.

Series chief Alejandro Agag said: "It's a great feeling to be able to confirm our calendar for the inaugural Formula E season and we're very thankful to all the cities, and candidate cities, for showing their commitment to sustainable mobility.

"We're confident our final 10 cities will provide an array of fantastic backdrops to showcase electric cars in their favoured urban environments, as well as allow us to put on a great spectacle for the fans."

2014/15 Formula E Calendar:
September 13 2014  Beijing (CN)
October 18 2014    Putrajaya (MAL)
November 15 2014   Rio de Janeiro (BR)
December 13 2014   Punta del Este (UY)
January 10 2015    Buenos Aires (RA)
February 14 2015   Los Angeles (USA)
March 14 2015      Miami (USA)
May 9 2015         Monte Carlo (MC)
May 30 2015        Berlin (D)
June 27 2015       London (GB)

10/30/2013

Um ano sem autódromo... o que mudou?

Dia 28, segunda-feira, fez um ano do último evento oficial do autódromo de Jacarepaguá, a derradeira etapa do campeonato carioca, encurtado por força da prefeitura que nos deu um "ponha-se na rua" para as "urgentes" obras para os Jogos de 2016.

Hoje, passados doze meses tudo o que foi feito foi uma demolição que não deixasse nenhum rastro de que um dia houve uma pista de corridas ali, nem visto de cima nem de dentro, apenas um árido descampado poeirento onde, perdidas, estão algumas máquinas e equipamentos emulando um canteiro de obras inútil.

Bate-estacas trabalham dia e noite na tarefa infrutífera de tentar fixar algo naquele terreno lamacento, recentemente começaram a construir uma usina de concreto, provavelmente para fabricar os pré-moldados que irão compor os prédios provisórios para os Jogos. Mas não espere ver nada subindo agora, segundo o que disseram para um grupo de jornalistas estrangeiros que estiveram visitando o local semana passada só haverá algo para ver lá para meados de 2015.


A morosidade dessa obra se dá principalmente pelo fato da prefeitura ainda não ter se decidido qual será o projeto final, para os jornalistas eles mostram uma coisa, para um grupo de empresários em um seminário eles mostram outra, para os moradores da Vila Autódromo eles mostram uma terceira opção ainda, e nenhuma delas é a definitiva dada a incapacidade do governo em cumprir o que está escrito, vide a questão do autódromo de Deodoro, que ficou na promessa, emperrado por um Relatório de Impacto Ambiental que não sai, e sem ele nada pode ser construído em Camboatá.

Aliás, a eterna espera ao autódromo em Deodoro empacou a iniciativa de qualquer um em construir uma pista de corridas em nosso estado, como esta não sai, nada sai, fica todo mundo na vontade e a cada dia mais gente abandona o esporte, como se tivéssemos muita gente disposta a pagar os altos custos que se cobra hoje pra entrar num carro de corrida.

Uma das perguntas que sempre me fazem é: Porque ninguém constrói uma pista de corridas particular?

Será porque não interessa financeiramente, porque não temos mais praticantes em abundância para justificar um investimento de milhões em um equipamento esportivo de uso tão específico, mesmo que haja praticantes, será que eles serão em número suficiente e com assiduidade para mantê-lo?

Sem falar das obrigações contratuais que uma pista precisa ter para ser homologada, tudo isso custa dinheiro, é claro que há várias formas de consegui-lo, mas enfrentamos uma concorrência desleal e de baixo nível, literalmente, ele se chama futebol.

Há anos escuto a história que "automobilismo não dá certo no Rio porque tem a concorrência da praia e do futebol", em tese isso é verdade, mas na prática já vi as arquibancadas de Jacarepaguá cheias de gente em pleno domingo com sol a pino, e ninguém saiu até a última corrida, existem públicos e públicos, e o maior erro dos publicitários é achar que é tudo o mesmo público.

É claro que esse "erro" de percepção é proposital, o futebol dá muito dinheiro de propaganda, quem está no esquema não vai querer ver uma cervejaria colocando suas fichas em outro negócio que não seja o dele, logo, denegrir e prejudicar tudo que não seja o futebol válido e incentivado, daí o desaparecimento do automobilismo na TV aberta, ficando restrito à onipresente F1 e a uma ou outra prova nacional em uma emissora pequena, no resto, certames regionais, arrancada, é um completo e criminoso silencio sobre a segunda maior audiência em todas as mídias, perdendo somente para o supracitado futebol.

Temos um segundo fator pouco citado, mas talvez bastante percebido, um empobrecimento moral e material da chamada "classe média/alta", até os anos 80 era comum ver pequenos empresários e profissionais liberais se arriscando nas pistas, alguns até com certo sucesso, depois do choque econômico do início dos anos 90 o esvaziamento do automobilismo começou de forma célere, para piorar a "era Senna" veio com a promessa de redenção de um país que sofria uma falência moral, com políticos corruptos, carestia, falta de compromisso e ética por parte dos governantes.

De uma hora para outra todos os olhos se voltaram para os monopostos, garotos de 15/16 anos precocemente foram empurrados para o kart para se tornarem "pilotos", li e vi muita gente apostando em seus filhos como futuras promessas do esporte de olho no dinheiro que poderiam ganhar com isso, e então vi se repetir aquela velha história de que para cada 1 Pelé que nascia vinham junto 100 peladeiros de final de semana.

Seriam "peladeiros" do automobilismo? Sim seriam felizes correndo nos finais de semana, com seus carros de turismo, talvez gastando um pouco de dinheiro, mas não as quantias indecentes que se cobram hoje para uma única corrida em uma categoria dita "top", mas isso não aconteceu porque o senso comum apontava que ou você era um novo "herói de capacete e sapatilha" do país ou então não era nada.

Quantas vezes levei pessoas ao autódromo para ver o Regional e a primeira pergunta que faziam era se alguma categoria famosa corria ali, alguns até se surpreendiam com o fato do autódromo ainda ser usado, até eu achava um milagre ele não ter sido demolido depois que a F1 foi embora para SP.

Lá fora as coisas também mudaram, se no início dos anos 90 a F1 sofria com a concorrência de categorias como o DTM, Endurance e Rally, em poucos anos ela foi tomando o espaço dessas categorias quase extinguindo-as, isso também limitou as opções de quem queria se profissionalizar no automobilismo europeu, a opção passou a ser os EUA, mas tirando a NASCAR e a F-Indy a maior parte do público brasileiro desconhece, só agora, timidamente, a WEC está começando atrair interesse dos espectadores, e principalmente, dos pilotos brasileiros que querem continuar correndo profissionalmente e não querem acabar seus dias no fundo do grid de uma Stock-Car , o que mostra que sempre há espaço para algo novo, e não que tenha necessariamente um brasileiro ganhando.

Resumindo para isso aqui não virar um tratado sociológico, a imprensa brasileira trata o consumidor de esporte como uma criança limítrofe de 12 anos, em que o esporte se for individual tem que ter um brasileiro ganhando, se for coletivo tem que ser o time que representa o país ou o que tem o maior lobby de torcida dentro da redação, por isso o automobilismo foi varrido pra fora do tapete, porque as grandes agências de propaganda faturam bilhões vendendo anúncios em estádios de futebol e em propagandas de intervalos de jogos, uma corrida de automóveis tem muitas variáveis que eles não controlam, cada carro tem seu patrocinador, que pode não ser o principal do evento, imagina um carro com propaganda da Shell ganhando uma corrida patrocinada pela Petronas? Nada demais certo? Não para a mentalidade infantil e imbecilizada da imprensa e dos "gurus" das agências de publicidade, para eles só pode haver um destaque, um vencedor e que de preferência seja o que tem um contrato com ele.

Com isso encerro aqui minha disgressão sobre o atual momento que estamos vivendo no automobilismo brasileiro, uma completa falta de visão do mercado, tolhida por interpretações mesquinhas formadas a partir de uma cartelização do mercado de propaganda, que controla e decide o que você, caro telespectador vai assistir. É claro que ainda temos a internet com seus streamings mais ou menos amigáveis, mas isso até sair o marco da internet brasileira, que provavelmente irá jogar o país em algo parecido como uma idade das trevas digital, restringindo as velocidades de download de vídeo e acesso a sites estrangeiros.

Mas nem tudo é triste nessa história, tive o prazer de rever velhos amigos nesse final de semana, amigos de carne e osso e os de aço e borracha que estiveram presentes no Kart Point Indoor no Extra da Tijuca, segundo os organizadores a idéia é fazer este evento anual, espero que em breve eles possam fazê-lo em um novo autódromo em nossa cidade.

 Lorena GTL

Os karts de Ayrton Senna e Roberto Pupo Moreno


Kart Mini que pertenceu a José Carlos Pace


 Réplica do Lorena Porsche do Sidney Cardoso.


 Escort da Copa Shell de Marcas e Pilotos, certame que chegava a reunir mais de 40 carros por prova


 Punto preparado para correr, chegou a ser testado em provas do Regional carioca, seria uma
 evolução para sair dos velhos Corsas da década de 90


 F-Renault do piloto Lucas Mollo, essa excelente categoria escola deixou de existir a alguns anos.



 
 Fiat Linea de competição, categoria lançada pelo Felipe Massa que só durou dois anos.


 O lendário Alfazoni


 Os últimos guerreiros de Jacarepaguá, o Gol do piloto Claudio Schuback e o Corsa do Rodrigo de Paoli



Fusca de arrancada do Rodolfo da SMS Competições.


A Fiat Uno da escola de pilotos Bi-Campeão, muita gente boa aprendeu as primeiras curvas de Jacarepaguá ao volante desse carrinho.


 Claro que a Megamarcas tinha que estar presente com seus Mavericks


 O lendário Febre Amarela


 O incrível Mustang fastback, já correu muitas Mil Milhas enfrentado, e vencendo, carros bem mais novos que ele


 Um tributo ao grande Amaury Mesquita, que fazia muito carro grande comer poeira de seu Mini nos anos 60 no antigo circuito da Caledônia, que era como chamavam o autódromo na época.


A nossa mensagem, tanto ontem, como hoje, quanto sempre, enquanto durar esse absurdo, enquanto não nos devolverem o que nos foi roubado, a nossa história esportiva terá que ser retomada.

Só para terminar, para aqueles que acham que nunca mais teremos um autódromo, para aqueles que tem projetos, planos, idéias geniais, apenas digo uma coisa: FAÇAM. Não esperem momentos oportunos ou que o governo mude, o dólar abaixe ou suba, construa algo, nem que seja uma pista de 201 metros de arrancada, se der certo faça uma maior, depois uma pista de corrida de 3 km, aí mais para frente aumenta mais um pouco. Não se preocupe com associações de pilotos, liga para organizar torneios, esqueça isso, apenas crie o espaço e cobre pelo uso dele o valor justo, mesmo que demore um pouco para retornar o investimento. Não relaxe com a segurança, soluções simples e bom senso substituem equipamentos caros, o resto se usa o que tem.
Em vez de boxes de 200 metros quadrados com mezanino refrigerado faça um bom espaço pro padock com instalações de luz e água, tendas no lugar de paredes, o que importa é a pista e um bom lugar para o público ver, vamos perder essa visão distorcida de F1 sofisticada e glamourosa e vamos botar o pé no chão de que somos um país pobre e que, principalmente, antes de agradar os de fora, temos que agradar nós mesmos, vamos descer do pedestal de nobreza falida e vamos aprender com os camaradas do sul que fazem suas pistas de terra e se divertem a valer, vamos afrouxar o nó da gravata e aproveitar o esporte pra se divertir e não pra ficar rico às custas do suor dos outros, enfim vamos reviver os tempos que ao chegar o final de tarde, depois que os motores silenciavam e que só se ouviam os pios dos quero-queros, sentar na beira da pista e ter uma visão como essa:


Fiquem com Deus, nos vemos na pista.

10/23/2013

Sim, ainda estamos aqui...

Olá amigos.

Sei que muitos estão estranhando o silencio do blog, desde julho não escrevo nada por aqui, mas o que há para escrever?

Publicar fotos do terreno vazio onde ficava o autódromo, sendo que a última novidade é que estão construindo uma usina de concreto para as obras?

Ou então comentar as tentativas infrutíferas da CBA em cassar a liminar que impede a construção do autódromo no morro do Camboatá em Deodoro?

Falar do esvaziamento do esporte a motor no Rio de Janeiro e o fracasso do torneio Rio-Minas e a inexistência de uma pista de arrancada no estado? 

Ou ainda, comentar que o prefeito está todo enrolado com uma tentativa de empréstimo de 3 bilhões de reais para terminar o BRT?

Não meus amigos, não há notícias aproveitáveis, um ano após o fechamento do autódromo tudo o que resta é o vazio, o nada, ou quase nada.

E é nesse "quase" que esse post está dedicado.

Como não temos presente e o futuro é uma incógnita vamos falar do passado, que pelo menos existe e é palpável, temos uma história que merece ser contada e lembrada.

Por isso convido a todos a irem na 1ª Expoautoracing no Point Kart Indoor, 1º piso do estacionamento do Extra da José Higino na Tijuca, segue o folder abaixo:


Espero por vocês lá, amigos do esporte a motor, pilotos, preparadores, é o nosso esporte,a nossa vida, vamos nos reencontrar e relembrar os bons momentos, que parecem que já se foram há tanto tempo.



7/29/2013

A Draga

Muito se falou antes do fechamento do autódromo de Jacarepaguá em uma ajuda que a Prefeitura daria para quem fosse correr no Mega-Espace, pista localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, na época eu achava absurdo que alguém topasse viajar 500 km pra correr um final de semana por mês, disse que se fosse assim era melhor pendurar o macacão e ir jogar vídeo game em casa.

O automobilismo regional geralmente é 99% pago pelo dinheiro dos próprios pilotos, alguns mais bem abonados ou relacionados conseguem até alguns patrocínios reais, mas a maioria passa o final do domingo assinando cheques ou separando dinheiro para pagar os integrantes da equipe, nada de mais se isso resultasse num final de semana em que ele estivesse satisfeito com tudo que tivesse sido feito e o retorno fosse a altura, independente de posição na pista ou no campeonato, mas o que era pra ser lúdico se tornou um calvário para a maioria dos participantes, a cada etapa se perguntavam se deveriam ou não preparar o carro para a corrida seguinte e se ao menos ela aconteceria, a mesma coisa com o pessoal da arrancada, e não surpreendentemente, dos 20/25 carros que alinhavam nos grids do Carioca até o final do ano passado apenas 5, sim 5 carros, se apresentaram para largar na segunda etapa do Torneio Rio-Minas nesse último final de semana.

Segundo relatos que recebi, o desempenho destes carros foi sofrível, coisa de 4 segundos mais lentos que os líderes, além de que desses 5 apenas dois chegaram ao final repetindo o fiasco da primeira etapa, e mesmo assim divulgam a prova como se ela fosse válida.

Essas coisas chegam a me dar vergonha, um campeonato que chegou a ter 44 carros alinhados, ser reduzido a isso é a prova cabal que o automobilismo carioca foi varrido para baixo do tapete, e que essa diretoria atual da FAERJ não tem condições de continuar a dirigir os desígnios do automobilismo carioca.

Não sei mais o que dizer, fica reprodução do release da FAERJ, parabéns aos dirigentes esportivos brasileiros que levaram o automobilismo brasileiro ao ponto que chegamos. Enquanto continuarem pensando apenas em vender carteira de piloto pra mandar pra fora do país para quem sabe um dia correr na F1 por uma equipe mambembe, pagando caro, o automobilismo brasileiro morrerá à mingua.



Como se não bastasse essa vergonha, o  Autódromo de Interlagos ao que tudo indica ficará fechado por pelo menos um ano para uma reforma que teoricamente lhe garantirá uma sobrevida por mais umas décadas, mas ninguém pensou como ficarão os pilotos paulistas com suas categorias que já estão sedimentadas há anos e agora reforçadas por alguns cariocas que resolveram ir para São Paulo devido em vez de esperar a solução de Minas Gerais. Vão se dividir entre o Velocittá e e Piracicaba? Legal? A F-Truck, GT-3 e Stock correrão aonde? Ribeirão Preto? Marginal Tietê?

Ah, vocês vão lembrar de Curitiba, afinal de contas a pista paranaense sempre socorreu os paulistas quando o Interlagos era fechado para suas eternas maquiagens pra F1, só que nem essa pista está garantida, ameaçada que está com o fim da concessão de uso do terreno, cujo proprietário foi condenado pela justiça trabalhista a pagar com a venda do mesmo os débitos devidos, logo o terreno irá a leilão, a menos que haja uma solução entre os concessionários e a justiça, mas só isso já coloca em cheque o planejamento dos eventos nacionais,  em um momento em que se precisa desesperadamente de exposição da mídia, perder as três principais capitais onde se tem autódromo no país é um duro golpe.

Acho que o que está acontecendo mostra a crise de que o automobilismo brasileiro está passando, não termos conseguido manter Jacarepaguá aberto foi a prova da fraqueza dos dirigentes esportivos e as consequências disso já começam a ser sentidas, e serão ainda mais em futuro próximo.

Um autódromo leva mais tempo para construir do que se pensa, não se trata apenas de aplainar uma área, asfaltar uma pista e colocar barreiras, se quisermos ter algo a altura do que tínhamos antes aqui  tem que haver um projeto sério, e primeiro de tudo a segurança de que nada vai ser mudado no meio do caminho para agradar interesses que não sejam o da construção da pista. Se tivessem ao menos cumprido o prometido e deixado o autódromo de Jacarepaguá aberto e funcionando, teríamos alguma esperança de manter o nosso esporte com visibilidade e lucratividade para os promotores de eventos, mas do jeito que está o esporte a motor ficou num beco sem saída.

Acredito que agora estamos vivendo um momento que ainda não mostrou todo o seu lado pior, daqui até o final do ano saberemos qual será o cronograma das obras de Interlagos e o que se resolveu sobre o AIC, do primeiro não tem jeito, ou se reforma ou ele morre na mão da especulação imobiliária, já o segundo pode se salvar se houver intresse público em mantê-lo, lembrando que o grupo que o administra hoje o pegou abandonado e com recursos privados vem mantendo-o dignamente, e espero que isso não acabe dessa maneira melancólica.

Acho que está hora de agir, depois do fiasco do Campus Fidei e das denúncias de crime ambiental e aterro criminoso da área de preservação permanente, acho que está na hora de reclamarmos a devolução do terreno do autódromo, afinal de conta o governador já está recuando na demolição do Júlio DeLamare e do Célio de Barros, lembrando sempre que o terreno pertence ao Estado, e que sua "doação" à Prefeitura é no mínimo altamente suspeita, além de, é claro, a concessão ao Consórcio também ter sido feita de forma atabalhoada, pois sequer foi apresentado um cronograma que justificasse a destruição da pista e que passado quase um ano nada tenha sido feito além de umas modestas sapatas de concreto que podem servir pra qualquer coisa ou coisa nenhuma.

Qualquer coisa diferente disso é continuar a ver o mato crescer, o tempo passar e nada sair do lugar, está na hora de começarmos a tomar brio, vergonha na cara, estou há nove anos com esse blog ne ão é por mim, que sou apenas um entusiasta de automobilismo, mas por todos aqueles que vivem e amam o esporte a motor, acho que está na hora, mais do que tardia, de começarmos um movimento "Volta Jacarepaguá", já que a prefeitura é incompetente até pra arrumar desculpa, vamos botar esse consórcio pra correr, já existe a denuncia do crime ambiental no MP sobre do Parque Olímpico,vamos nos mexer pra acabar com essa palhaçada.

Quando aos órgãos dirigentes do automobilismo fica a quem de direito decidir o futuro deles, mas sabemos desde já que com essas pessoas não teremos nem apoio, nem ajuda, nem nada, e se querem saber, nem precisamos.

Vamos em frente, que é pra frente que se caminha.