Primeiro, uma reportagem da Folha de São Paulo, do jornalista Fábio Seixas:
03/05/2013 - 03h32
Além de bombas, área de futuro autódromo no Rio tem risco tóxico
FÁBIO SEIXAS
DO RIO
O problema da presença de explosivos no terreno destinado a receber o autódromo de Deodoro, na zona oeste do Rio, pode ir além do risco de detonação acidental. Pode ser caso de saúde pública.
Documento do Gaema (Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente), do último dia 15, do Ministério Público do Rio alerta para o risco de resíduos dos artefatos terem contaminado solo e lençol freático da região, que receberá instalações para os Jogos Olímpicos de 2016.
Antes de ser cedida ao Ministério do Esporte, no fim de 2012, a área era utilizada para instrução militar.
Está infestada por explosivos como morteiros e granadas, muitos não detonados.
Ontem o governo do Rio informou que se não houver garantia da retirada de todos os explosivos o autódromo não será construído lá, mas não falou sobre contaminação.
Segundo quatro promotores do Gaema, a exposição a substâncias como nitroaromáticos e nitraminas pode ser nociva, inclusive à saúde dos militares que estão atuando na remoção das bombas.
"Resíduos de explosivos são [...] persistentes e tóxicos, mesmo a baixas concentrações", escrevem os promotores, que pedem "avaliações e relatórios ambientais prévios" no terreno.
Os compostos são usados em explosivos para liberar nitrogênio de forma rápida.
"Há nitroderivados que podem ser cancerígenos. Mas depende da substância e da concentração", diz Miguel Joaquim Dabdoub Paz, doutor em Química e professor da USP em Ribeirão Preto.
Para Marcio Barreto Rodrigues, doutor em biotecnologia industrial e professor da UTFPR ( Universidade Tecnológica Federal do Paraná), serviços de remoção de terra e de terraplanagem podem agravar o problema.
O problema deve agravar a situação do autódromo.
Procurado pela Folha, o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Cleyton Pinteiro, disse ter ficado surpreso: "Só faltava essa". Ele afirmou que pedirá uma reunião em breve com o Comando Militar do Leste.
O secretário da Casa Civil do Rio, Regis Fichtner, disse que já informou aos ministérios do Esporte e da Defesa que a licitação só será realizada "se tivermos garantias de que o terreno está completamente livre de risco".
Ontem, em nota, o Comando Militar do Leste reafirmou que o trabalho de retirada de explosivos será concluído até o segundo semestre.
A Rio-2016 disse não ter evidências de que a área dos Jogos possa ter sido afetada. O Inea (Instituto Estadual do Ambiente) não respondeu. A licitação está prevista para junho. Os custos são federais. Por ora, a previsão de entrega está mantida para o segundo semestre de 2014.
02/05/2013 - 11h23
CBA crê em circuito de Deodoro, mas teme: 'Se não tiver condição, é o caos'
Antiga área militar, terreno tem alto risco de explosões e descontaminação pode levar anos. Governo do RJ admite que pode procurar um outro local
O presidente da CBA mostrou confiança na palavra do Comando do Exército Militar do Leste de que o terreno será entregue sem artefatos que possam prejudicar a construção do novo autódromo, mas admitiu uma pitada de preocupação, caso o processo não transcorra como o previsto.
- Eu continuo acreditando na construção do autódromo em Deodoro. O Comando Militar do Leste garantiu que ia descontaminar a área. Se eles assumiram, eu acredito. Até que provem o contrário, a palavra deles é maior do que qualquer outra. O exército brasileiro tem capacidade de fazer isso plenamente. Se não tiverem condição de descontaminar a área, será o caos. Vou me reunir com o CML para receber esclarecimentos sobre a situação e definir como proceder. Não temos plano B, não conversamos sobre outros terrenos até o momento - disse Cleyton Pinteiro.
De acordo com o departamento jurídico da CBA, a licitação para a construção do novo autódromo está prevista para o início do segundo semestre, e as obras, para o fim do ano ou começo de 2014. O Comando Militar do Leste, que está realizando a descontaminação, admite que as obras poderão ser iniciadas antes da varredura total do terreno.
A construção de um novo circuito na cidade é um compromisso da União e da Prefeitura do Rio de Janeiro com a CBA e o Comitê Olímpico Internacional, em razão da demolição do Autódromo de Jacarepaguá para dar lugar ao Parque Olímpico para os Jogos de 2016. A pista antiga sediou dez GPs de Fórmula 1 e recebeu outras grandes categorias do esporte a motor como MotoGP e Indy, além dos principais campeonatos nacionais, como a Stock Car.
Promessas não cumpridas, RJ sem autódromo
O acordo inicial previa que o circuito de Jacarepaguá, que foi cedido pela Prefeitura do Rio à União, só seria desativado quando um novo autódromo, no bairro de Deodoro, fosse entregue. Mas, em razão de diversos impasses, a antiga pista já foi totalmente demolida e as obras no novo local sequer foram iniciadas.
Em novembro de 2012, um segundo acordo foi delineado. O terreno em Deodoro foi doado pelas Forças Armadas ao Ministério do Esporte, e o Comando Militar ficou com a responsabilidade de descontaminar o local. De acordo com o compromisso atual, o circuito de Jacarepaguá só seria desativado quando a nova pista começasse a ser construída. Porém, o autódromo antigo já foi totalmente demolido e as obras no novo local seguem na estaca zero. Sem ter direitos administrativos sobre o terreno, a CBA segue na dependência que as autoridades cumpram com a promessa da construção da nova pista para o Rio de Janeiro voltar a ter um palco para sediar competições.
- Vimos que seria complicado executarem o prometido no prazo. Temos um acordo verbal de que será feita a descontaminação e a construção do circuito – completou Cleyton Pinteiro.
De acordo com o compromisso atual, a União financiará a construção do novo autódromo. As obras serão de responsabilidade do Governo do Estado e a administração do local ficará por conta do município do Rio de Janeiro.
Mas o presidente esqueceu de dizer na entrevista que a entidade tinha entrado com uma liminar cassando a decisão de revogação da licença ambiental da obra junto com o Governo do Estado e o Inea, então ele era sabedor da proibição da obra, será que não tinha sido informado sobre os artefatos bélicos, e pior, pelos números apresentados até agora o lugar é um grande campo minado sendo impossível garantir a segurança de quem for realizar a obra ou frequentar o autódromo se este for construído ali.
Poderia ter acabado aqui, mas a cereja do bolo veio na noite de sexta-feira (03/05):
A sugestão seria uma alternativa diante dos riscos em construir o equipamento esportivo em uma área repleta de explosivos de alto poder destrutivo. O Comando Militar do Leste estima que sejam necessários 18 anos para encontrar todos os artefatos espalhados pela área de 2 milhões de m², que servia de campo de treinamento de tiro para as Forças Armadas.
A área em Guaratiba também é do Exército brasileiro, mas não enfrentaria os mesmos problemas que o espaço em Deodoro. O vereador Carlo Caiado (DEM), presidente da comissão, acredita que o bairro está totalmente preparado para receber um empreendimento desse porte:
"A abertura do túnel da Grota Funda está ajudando a viabilizar muito o bairro. Acho que há espaço para que o novo autódromo da cidade seja construído lá, como por exemplo, em um dos inúmeros terrenos pertencentes ao Exército. Vou me reunir com a Comissão na semana que vem e vamos tentar marcar uma reunião com o Secretário Régis Fichtner e encontrar uma saída viável”, promete.
Legislação impede construção
A legislação municipal, no entanto, não permite que o autódromo seja construído em Guaratiba, por conta de diversas restrições urbanísticas. Para Caiado, no entanto, a Câmara dos Vereadores pode auxiliar a viabilizar a ideia, alterando os marcos legais para a região:
“A Prefeitura prometeu enviar a minuta do PEU (Projeto de Estruturação Urbana) de Guaratiba ainda esse ano à Câmara. Se houver um entendimento, o Projeto pode chegar a Casa já prevendo a implantação de um equipamento esportivo de porte, como é o caso do autódromo. Se não, a própria Câmara pode emendar o projeto e apresentar essa solução, que é muito positiva para a cidade e para o bairro", completa.
Analisando todo este contexto posso dizer que isso é no mínimo orquestrado, dizer que o prefeito não sabia da história de Deodoro é conveniente para quem o considera apenas um imbecil, diria que ele se passa por, pois se fosse não estaria onde está, esperteza, ou que ele acha que é, é o seu sobrenome e está usando-a para começar um segundo passo de ocupação imobiliária na cidade.
DO RIO
O problema da presença de explosivos no terreno destinado a receber o autódromo de Deodoro, na zona oeste do Rio, pode ir além do risco de detonação acidental. Pode ser caso de saúde pública.
Documento do Gaema (Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente), do último dia 15, do Ministério Público do Rio alerta para o risco de resíduos dos artefatos terem contaminado solo e lençol freático da região, que receberá instalações para os Jogos Olímpicos de 2016.
Antes de ser cedida ao Ministério do Esporte, no fim de 2012, a área era utilizada para instrução militar.
Está infestada por explosivos como morteiros e granadas, muitos não detonados.
Ontem o governo do Rio informou que se não houver garantia da retirada de todos os explosivos o autódromo não será construído lá, mas não falou sobre contaminação.
Segundo quatro promotores do Gaema, a exposição a substâncias como nitroaromáticos e nitraminas pode ser nociva, inclusive à saúde dos militares que estão atuando na remoção das bombas.
"Resíduos de explosivos são [...] persistentes e tóxicos, mesmo a baixas concentrações", escrevem os promotores, que pedem "avaliações e relatórios ambientais prévios" no terreno.
Os compostos são usados em explosivos para liberar nitrogênio de forma rápida.
"Há nitroderivados que podem ser cancerígenos. Mas depende da substância e da concentração", diz Miguel Joaquim Dabdoub Paz, doutor em Química e professor da USP em Ribeirão Preto.
Para Marcio Barreto Rodrigues, doutor em biotecnologia industrial e professor da UTFPR ( Universidade Tecnológica Federal do Paraná), serviços de remoção de terra e de terraplanagem podem agravar o problema.
O problema deve agravar a situação do autódromo.
Procurado pela Folha, o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Cleyton Pinteiro, disse ter ficado surpreso: "Só faltava essa". Ele afirmou que pedirá uma reunião em breve com o Comando Militar do Leste.
O secretário da Casa Civil do Rio, Regis Fichtner, disse que já informou aos ministérios do Esporte e da Defesa que a licitação só será realizada "se tivermos garantias de que o terreno está completamente livre de risco".
Ontem, em nota, o Comando Militar do Leste reafirmou que o trabalho de retirada de explosivos será concluído até o segundo semestre.
A Rio-2016 disse não ter evidências de que a área dos Jogos possa ter sido afetada. O Inea (Instituto Estadual do Ambiente) não respondeu. A licitação está prevista para junho. Os custos são federais. Por ora, a previsão de entrega está mantida para o segundo semestre de 2014.
Colaborou SÉRGIO RANGEL, do Rio
No dia anterior (02/05), a opção "Deodoro" subia no telhado mais uma vez, agora quase que em definitivo:
02/05/2013 - 11h23
Mesmo antes de licitação, Rio já admite deixar de construir autódromo em Deodoro
DO RIO
O secretário da Casa Civil do Rio, Regis Fichtner, admitiu nesta quinta-feira que o novo autódromo do Rio poderá deixar de ser construído em Deodoro, na zona oeste do Rio.
O terreno do Exército, onde será erguido o autódromo, serviu de campo de instrução militar e está sendo descontaminado.
"Já informamos aos ministérios do Esporte e da Defesa que só realizaremos a licitação se tivermos garantias que o terreno está completamente livre de risco", afirmou Fichtner.
Segundo o Ministério do Esporte, o Exército se comprometeu em entregar até julho o equivalente a 16% da área total do terreno de 2 milhões de metros quadrados do antigo campo de instrução, que correspondem aos trechos onde serão construídas pistas, instalações de apoio e arquibancadas, limpo de explosivos.
"Se essa questão não se resolver, teremos que ir atrás de outro lugar. Estamos discutindo isso com o governo federal e a Prefeitura do Rio", acrescentou o secretário.
A licitação está prevista pelo governo do Rio para acontecer em junho. O dinheiro será bancado pelo governo federal. Pelo planejamento inicial, a pista do autódromo deverá estar pronta no segundo semestre de 2014.
O Governo do Rio apresentou nesta quinta as propostas técnicas do consórcios para a licitação do Complexo de Deodoro. Nove esportes serão disputados lá durante os Jogos de 2016.
Com isso essa entrevista com o presidente da CBA revela uma falha grave, que eles não previam "plano B", então como fica?O secretário da Casa Civil do Rio, Regis Fichtner, admitiu nesta quinta-feira que o novo autódromo do Rio poderá deixar de ser construído em Deodoro, na zona oeste do Rio.
O terreno do Exército, onde será erguido o autódromo, serviu de campo de instrução militar e está sendo descontaminado.
"Já informamos aos ministérios do Esporte e da Defesa que só realizaremos a licitação se tivermos garantias que o terreno está completamente livre de risco", afirmou Fichtner.
Segundo o Ministério do Esporte, o Exército se comprometeu em entregar até julho o equivalente a 16% da área total do terreno de 2 milhões de metros quadrados do antigo campo de instrução, que correspondem aos trechos onde serão construídas pistas, instalações de apoio e arquibancadas, limpo de explosivos.
"Se essa questão não se resolver, teremos que ir atrás de outro lugar. Estamos discutindo isso com o governo federal e a Prefeitura do Rio", acrescentou o secretário.
A licitação está prevista pelo governo do Rio para acontecer em junho. O dinheiro será bancado pelo governo federal. Pelo planejamento inicial, a pista do autódromo deverá estar pronta no segundo semestre de 2014.
O Governo do Rio apresentou nesta quinta as propostas técnicas do consórcios para a licitação do Complexo de Deodoro. Nove esportes serão disputados lá durante os Jogos de 2016.
CBA crê em circuito de Deodoro, mas teme: 'Se não tiver condição, é o caos'
Antiga área militar, terreno tem alto risco de explosões e descontaminação pode levar anos. Governo do RJ admite que pode procurar um outro local
Por Felipe Siqueira
Apesar de o secretário da casa civil do governo do estado do
Rio de Janeiro, Regis Fichtner, admitir que o terreno de Deodoro pode
não receber mais o novo autódromo, em razão do risco de explosões
, o presidente da Confederação Brasileira de
Automobilismo (CBA), Cleyton Pinteiro, está confiante na construção do
circuito no local. A área, no bairro da Zona Oeste da cidade, foi usada
durante mais de seis décadas pelo exército para treinamento militar e
como depósito de munição e possui materiais bélicos enterrados no solo. O
risco de explosões é considerado máximo e o terreno precisa ser
descontaminado para serem executas as obras, previstas para começar no
fim de 2013, início de 2014. Porém, em reportagem à rádio CBN,
especialistas afirmaram acreditar que uma varredura total da área de
dois milhões de metros quadrados pode levar mais de 18 anos e
desaconselham qualquer construção na região.
Rio de Janeiro
O presidente da CBA mostrou confiança na palavra do Comando do Exército Militar do Leste de que o terreno será entregue sem artefatos que possam prejudicar a construção do novo autódromo, mas admitiu uma pitada de preocupação, caso o processo não transcorra como o previsto.
- Eu continuo acreditando na construção do autódromo em Deodoro. O Comando Militar do Leste garantiu que ia descontaminar a área. Se eles assumiram, eu acredito. Até que provem o contrário, a palavra deles é maior do que qualquer outra. O exército brasileiro tem capacidade de fazer isso plenamente. Se não tiverem condição de descontaminar a área, será o caos. Vou me reunir com o CML para receber esclarecimentos sobre a situação e definir como proceder. Não temos plano B, não conversamos sobre outros terrenos até o momento - disse Cleyton Pinteiro.
De acordo com o departamento jurídico da CBA, a licitação para a construção do novo autódromo está prevista para o início do segundo semestre, e as obras, para o fim do ano ou começo de 2014. O Comando Militar do Leste, que está realizando a descontaminação, admite que as obras poderão ser iniciadas antes da varredura total do terreno.
A construção de um novo circuito na cidade é um compromisso da União e da Prefeitura do Rio de Janeiro com a CBA e o Comitê Olímpico Internacional, em razão da demolição do Autódromo de Jacarepaguá para dar lugar ao Parque Olímpico para os Jogos de 2016. A pista antiga sediou dez GPs de Fórmula 1 e recebeu outras grandes categorias do esporte a motor como MotoGP e Indy, além dos principais campeonatos nacionais, como a Stock Car.
Promessas não cumpridas, RJ sem autódromo
O acordo inicial previa que o circuito de Jacarepaguá, que foi cedido pela Prefeitura do Rio à União, só seria desativado quando um novo autódromo, no bairro de Deodoro, fosse entregue. Mas, em razão de diversos impasses, a antiga pista já foi totalmente demolida e as obras no novo local sequer foram iniciadas.
Em novembro de 2012, um segundo acordo foi delineado. O terreno em Deodoro foi doado pelas Forças Armadas ao Ministério do Esporte, e o Comando Militar ficou com a responsabilidade de descontaminar o local. De acordo com o compromisso atual, o circuito de Jacarepaguá só seria desativado quando a nova pista começasse a ser construída. Porém, o autódromo antigo já foi totalmente demolido e as obras no novo local seguem na estaca zero. Sem ter direitos administrativos sobre o terreno, a CBA segue na dependência que as autoridades cumpram com a promessa da construção da nova pista para o Rio de Janeiro voltar a ter um palco para sediar competições.
- Vimos que seria complicado executarem o prometido no prazo. Temos um acordo verbal de que será feita a descontaminação e a construção do circuito – completou Cleyton Pinteiro.
De acordo com o compromisso atual, a União financiará a construção do novo autódromo. As obras serão de responsabilidade do Governo do Estado e a administração do local ficará por conta do município do Rio de Janeiro.
Mas o presidente esqueceu de dizer na entrevista que a entidade tinha entrado com uma liminar cassando a decisão de revogação da licença ambiental da obra junto com o Governo do Estado e o Inea, então ele era sabedor da proibição da obra, será que não tinha sido informado sobre os artefatos bélicos, e pior, pelos números apresentados até agora o lugar é um grande campo minado sendo impossível garantir a segurança de quem for realizar a obra ou frequentar o autódromo se este for construído ali.
Poderia ter acabado aqui, mas a cereja do bolo veio na noite de sexta-feira (03/05):
Rio
Câmara sugere que novo autódromo seja construído em Guaratiba
A sugestão seria uma alternativa diante dos riscos em construir o equipamento esportivo em uma área repleta de explosivos de alto poder destrutivo. O Comando Militar do Leste estima que sejam necessários 18 anos para encontrar todos os artefatos espalhados pela área de 2 milhões de m², que servia de campo de treinamento de tiro para as Forças Armadas.
A área em Guaratiba também é do Exército brasileiro, mas não enfrentaria os mesmos problemas que o espaço em Deodoro. O vereador Carlo Caiado (DEM), presidente da comissão, acredita que o bairro está totalmente preparado para receber um empreendimento desse porte:
"A abertura do túnel da Grota Funda está ajudando a viabilizar muito o bairro. Acho que há espaço para que o novo autódromo da cidade seja construído lá, como por exemplo, em um dos inúmeros terrenos pertencentes ao Exército. Vou me reunir com a Comissão na semana que vem e vamos tentar marcar uma reunião com o Secretário Régis Fichtner e encontrar uma saída viável”, promete.
Legislação impede construção
A legislação municipal, no entanto, não permite que o autódromo seja construído em Guaratiba, por conta de diversas restrições urbanísticas. Para Caiado, no entanto, a Câmara dos Vereadores pode auxiliar a viabilizar a ideia, alterando os marcos legais para a região:
“A Prefeitura prometeu enviar a minuta do PEU (Projeto de Estruturação Urbana) de Guaratiba ainda esse ano à Câmara. Se houver um entendimento, o Projeto pode chegar a Casa já prevendo a implantação de um equipamento esportivo de porte, como é o caso do autódromo. Se não, a própria Câmara pode emendar o projeto e apresentar essa solução, que é muito positiva para a cidade e para o bairro", completa.
Analisando todo este contexto posso dizer que isso é no mínimo orquestrado, dizer que o prefeito não sabia da história de Deodoro é conveniente para quem o considera apenas um imbecil, diria que ele se passa por, pois se fosse não estaria onde está, esperteza, ou que ele acha que é, é o seu sobrenome e está usando-a para começar um segundo passo de ocupação imobiliária na cidade.
Com a construção do túnel da Grota Funda ele tirou um "tampão" que impedia a expansão imobiliária da Barra-Recreio para a Zona Oeste, com o túnel pronto ele tratou de impedir a ocupação de baixa renda na região privando a população das vans e enfiandos-as no infame BRT, com isso, sem fartura de transporte a grande área circunscrita entre a saída do túnel e a estação Pingo Dágua virou uma especie de oásis sem casas, prédios nem condomínios, mas isso está para mudar.
A idéia de colocar um autódromo ali, seria perfeita, para eles é claro, pois atenderia os anseios dos automobilistas que sempre viraram a cara para a opção Deodoro, pois mesmo sem saber da questão dos explosivos ou da preservação ambiental, reclamavam principalmente pela falta de segurança da região e, creio eu, da perda de status de sairem da Barra para um subúrbio na beira da Avenida Brasil.
Antes que taquem pedra, e eu sei que vão tacar, eu tenho certeza que vai ficar todo mundo alegre com essa possibilidade de Guaratiba, eu também ficaria, se não soubesse que por trás disso vem um plano de ocupação imobiliária predatório, senão vejamos:
- O terreno da baixada de Guaratiba é um pântano imenso, inclusive parte da região é campo de treinamento do exército (mais explosivos enterrados?) e outra parte é centro de desenvolvimento da Embrapa, que apesar do prefeito ter declarado que a cidade não possui mais área rural, ou seja, que todas as regiões da cidade estão aptas a concentração populacional, ainda funciona com importante centro de referência de desenvolvimento de produtos agrícolas.
- É sabido, e já disse isso aqui tempos atrás, que um autódromo é um precursor de ocupação urbana, primeiro porque traz a infra-estrutura básica: água, esgoto, energia elétrica e comunicações, segundo porque permite uma relação de trabalho direta, seja pela alocação em seu entorno de oficinas mecânicas, garagens, os lotes de arruamento são maiores, que permitem a colocação de casas com generosas garagens e quintais, o que hoje em dia é um luxo, já que a prefeitura considera que um apartamento de 40 metros quadrados é o suficiente para uma família morar, que basta ver até os lançamentos de condomínios de classe média para ver que a grande mercadoria que se tem ali para vender é o espaço e a qualidade de vida.
Pois bem, uma vez explicado isso eu não creio que um autódromo tenha vida longa, primeiro porque em pouco tempo seu entorno estria ocupado por casas, provavelmente de alto luxo, já que terreno farto e barato no atual estado da arte da especulação imobiliária carioca não existe, segundo que a operação do autódromo iria criar conflitos com o "bucolismo da vida no campo" que seria vendido para quem escolhesse morar ali pagando caro pelo metro quadrado e gastando fortunas para construir sua casa dentro de um condomínio.
Com isso em pouco tempo a operação do autódromo seria impossível, e sendo o terreno público não seria difícil outra manobra política para entregar o terreno para uma futura ação imobiliária, que aconteceria convenientemente quando se esgotassem as opções de áreas livres na região.
Temos a questão do solo, como falei antes, é uma região de baixada e lagoas, que se estende por quilometros quadrados, como aterrar esse solo convenientemente? De onde se retiraria material necessário pra conseguir subir, nivelar e compactar uma área tão grande?
Alguns números: o autódromo de Jacarepaguá foi construído sobre um solo de turfa apodrecida, fruto de milhões de anos de ciclos de maré e chuvas junto com o depósito de detritos provenientes das encostas dos morros que formaram a restinga onde hoje repousa o bairro, nada além disso, em 1966 Ayrton Cornensen, pai do primeiro projeto do autódromo, teve que remover toneladas dessa lama para assentar em cima do terreno seis metros da altura de terra, brita graduada e asfalto, e assim fazer um circuito minimamente utilizável, mesmo assim essa pista em 1972 já se encontrava totalmente deteriorada, sendo fechada para reformas que consumiram 5 anos e milhões de metros cúbicos de areia retiradas do fundo da lagoa de Jacarepaguá, essa areia formou a base do terreno do autódromo, o um milhão de metros quadrados tão cobiçados pela industria da construção civil, só que eles não sabiam que estavam comprando gato por lebre.
A engenharia da construção civil gosta de brincar de Deus, que para ela não existe obstáculo que a tecnologia não possa superar, mas ela esquece de um detalhe: o custo.
Para construir torres de apartamentos de 40 andares sob aquele solo arenoso e pantanoso, seriam necessárias soluções caras e demoradas para levantar os prédios, custo hoje impagável em tempos pré-bolha imobiliária, então o que fazer?
Uma solução seria devolver o terreno a prefeitura e esta reconstruir o autódromo de onde nunca poderia ter saído, parece uma solução fantasiosa, mas vejamos:
A Europa está falida, isso afeta diretamente os investimentos que estão sendo feitos aqui, a maquiagem da cidade transformando-a em balneário turístico custam caro, e só se justificariam se viesse dinheiro de fora, o que não está acontecendo, não na velocidade que esperavam, construtoras que jogaram na bolsa estão amargando prejuízos com a retirada de investidores europeus, em 2013 o número de lançamentos imobiliários caiu muito em relação ao ano passado e a situação só tende a piorar.
A reboque dessa recessão temos a questão do esporte, quanto menos dinheiro disponível mais se fazem tentativas para arrancá-lo do mesmo lugar que vinha antes, isso explica a multiplicação de eventos esportivos por todo o planeta, e essa situação está começando a incomodar os atletas de alto desempenho que já começam a reclamar publicamente do excesso de eventos cujo objetivo único é faturar. Exemplo disso é a Olimpíada da Europa, um ano antes do Rio, que já está sendo criticada pelos atletas, o COI autoriza esses eventos porque sabe que a fonte está secando, o problema é que agora ele está atingindo as pessoas que fazem o esporte, pois as que consomem já saturaram sua capacidade de absorver eventos, pagar por eles ou consumir o que é vendido com a imagem deles.
Os grandes eventos no Brasil abriram caminho para uma relação mais perversa ainda do capital com o povo, mas isso só foi possível com um governo com uma forte identificação e participação dentro deste, a continuar deste jeito estariam eles atirando no próprio pé, quando começaram a oprimir os mais pobres, dos bairros mais afastados, que não tinham vez nem voz, a grande mídia se calou convenientemente, pois isso não impediria que seu status quo fosse afetado, mas quando em pleno coração da Zona Sul se cravam imensos bate-estacas e derrubam árvores, e o governo trata da mesma forma aqueles que se achavam acima desses infortúnios, vejo aí um erro de cálculo.
Foi um erro terem destruído o autódromo, afinal automobilismo é esporte de rico, mas que muita gente pobre dependia dele pra sobreviver, tiraram o sustento do pobre, e os ricos não ligaram porque sempre teriam outra pista para andar, e estavam prometendo construir outra pista, de nível internacional, para eles, que apesar do nojinho de ter que ir para um subúrbio seria a volta do seu "parquinho", mas deu tudo errado.
A situação de Deodoro é incontornável, a proposta de Guaratiba é plausível, mas como mostrei acima é apenas a ponta-de-lança para uma invasão imobiliária, que pode até ser contida de momento por conta da crise de liquidez vivida no país, mas não subestimem o capital especulativo, ele pode aparecer de várias formas, basta haver a possibilidade de lucro fácil e rápido, e não esqueçamos a eterna fome das construtoras de cada vez mais dinheiro não só para sustentarem seus lucros como também os lucros daqueles que lhes dão as facilidades para ganhar as licitações e contratos.
Um autódromo em Guaratiba só será viável se for construído dentro um cinturão de segurança anti-especulação imobiliária, um parque de 2 milhões de metros quadrados onde o autódromo fique inserido, longe de qualquer influencia especulativa e diminuindo o seu impacto ambiental a um mínimo necessário para sua existencia, fora disso, é golpe, fraude e tentativa de usar o autódromo, ou melhor, a falta dele, para se gastar dinheiro público.
Outra coisa, o dinheiro, a prefeitura não deve gastar um centavo nesse autódromo, a construção deve ficar a caso da iniciativa privada, com dinheiro privado e administração privada, a contrapartida social será dada além da preservação do entorno como projetos sociais e acessibilidade de eventos de baixo custo para que quaisquer pessoas possam andar e melhorar suas habilidades em conduzir automóveis, os famosos Track Days, que começaram democráticos e acabaram virando um festival de exibicionismo tecnológico excludente.
Pode parecer utópico, mas como estamos vivendo numa distopia às vezes o óbvio toma contornos de extraordinário, a possibilidade do autódromo voltar para seu local de origem aumenta na mesma proporção em que os lucros das construtoras caem vertiginosamente, uma pista particular inserida em uma área urbana consolidada seria mais lucrativo a longo prazo do que mais uma coleção de predinhos de varandas e serviços que só se degradariam com o tempo provocando a desvalorização do metro quadrado da região.
Está cada dia mais claro que os grandes eventos estão se transformando num fiasco, ou melhor ainda, numa fraude, pois venderam a história que eles iriam mudar tudo e nada mudou, nem no esporte, nem na vida das pessoas comuns. Não se muda uma realidade de décadas em anos, ainda mais sem planejamento nem conhecimento de como as pessoas vivem e se relacionam com a cidade.
Como já falei antes, o automobilismo é a única possbilidade de grande evento e projeção internacional no país após 2016, e provavelmente o desespero em achar um lugar para o novo autódromo revele essa verdade, o problema é que não precisavam ter demolido Jacarepaguá para tanto, podiam ter adaptado os equipamentos lá dentro, mas a ganância falou mais alto, e muitas vezes quem muito quer nada tem, e esse parece ser o caso agora.
Querem automobilismo de volta na nossa cidade? É simples.
Devolvam o terreno da restinga de Itapeba e reconstruam o autódromo, que ele seja melhor, mais moderno, talvez com um traçado diferente. A mentira da valorização daquela região caiu por terra, resta saber até quando as construtoras vão continuar teimando em queimar dinheiro com um empreendimento que não vai decolar.
A Vila Autódromo não vai sair de onde está, muito menos o aeroclube, já se tentaram todas as desculpas possíveis para justificar uma remoção, mas eles não podem forçar como fizeram no Campinho ou no Morro da Providencia, ali todo mundo sabe exatamente o que fazer e pelo que lutar, e os nosso políticos não sabem lidar bem com isso.
Ainda há muita lenha para queimar sobre esse assunto, vamos ver o que a semana nos espera.
Nos vemos na pista.


