6/20/2024

Aprovado!

    Mais um passo, importantíssimo, para a volta do autódromo da Cidade do Rio de Janeiro, o Autódromo Parque de Guaratiba.

    Ontem, em segunda discussão, em plenário da Câmara, o projeto de lei foi aprovado, e agora segue para sanção do Prefeito.

    Importante lembrar que esse projeto não contempla investimento direto de verbas da prefeitura, mas um consórcio entre a iniciativa privada e o poder público através de concessão de direito de uso e direitos construtivos, o projeto sofreu algumas mudanças, mas em sua essência continua o mesmo, foram acrescentados projetos de melhoria viária e infraestrutural do entorno.

    Mas o que importa é que o processo está caminhando, apesar de algumas opiniões contrárias, em relação ao terreno e a impactos ambientais, temos que salientar hoje que o local é uma terra arrasada, sem árvores, sem nada, sujeito a alagamentos por falta de drenagem do solo adequada e correndo o risco de ser invadido por moradias irregulares, então urge dar uma nova destinação a esse terreno e recuperar para a cidade um equipamento muito importante para a indústria de turismo e eventos.

    Cabe lembrar que hoje estamos perdendo eventos automobilísticos até para Minas Gerais, que na época da demolição de Jacarepaguá não possuía nenhum autódromo e hoje possui dois em pleno funcionamento (Potenza, em Lima Duarte, e Cristais, em Curvelo), sem falar na questão de que o esporte a motor em nosso estado foi profundamente impactada pela ausência de uma pista permanente.

    Sempre acreditei que o autódromo deveria ser de operação privada, como o que está previsto no contrato, pois o automobilismo precisa de continuidade para tocar os seus projetos, isso ajuda muito a não haver interferências indevidas na atividade do autódromo, enfim, o que sempre deveria ter sido.

    Agora é aguardar a sanção do prefeito e a devida publicação no DO municipal, o que não deve demorar muito, espero em breve que as obras comecem de fato, e que em, no máximo, dois anos esse autódromo saia do papel.

    Posso parecer otimista, mas nunca é demais lembrar que já se passaram doze anos, é muito tempo, inclusive para se esquecer o que tínhamos, então esse esforço da prefeitura e do Vereador Carlo Caiado em promover a volta do autódromo tem que ser reconhecido e elogiado, principalmente pelo segundo, que desde de antes da demolição de Jacarepaguá vinha procurando alternativas para a instalação do novo autódromo.

     A lamentar apenas o tempo perdido com a tentativa de Deodoro, inviável desde o primeiro momento, que se arrastou durante quase uma década quando a resposta estava sempre ali, mas pelo menos a realidade se apresentou e a possibilidade de se recuperar o tempo perdido está sendo feita.

    E Vamos em frente, espero em breve estar registrando o início das obras do Autódromo da Cidade do Rio de Janeiro, o Autódromo parque de Guaratiba.


LINKS: Projeto do novo autódromo

             


5/21/2024

PLC 162/2024, um novo começo?

 


Hoje, 21 de maio de 2024, foi dado o pontapé inicial para o resgate de uma das maiores injustiças que essa cidade já viveu, que foi a destruição do autódromo de Jacarepaguá.

Este blog, no ar de 2004, foi até 2012 uma das principais vozes, e, talvez, a última a defender o autódromo, sendo que estive lá até seu último dia de operação, em novembro de 2012.

Quem esteve ao longo dos anos no olho do furacão, brigando pela manutenção do autódromo, vendo as idas e vindas jurídicas, sabe que a luta foi difícil, mas não jogamos a toalha enquanto tínhamos esperança de reverter ou diminuir o estrago que estava sendo feito.

Não se tratava apenas de interromper as atividades do autódromo, mas o precedente que isso daria para que outras praças esportivas tivessem o mesmo destino, tanto é que perdemos o autódromo de Curitiba.

Mas lá, ao contrário do autódromo carioca, esse era da iniciativa privada, e foi do interesse deles que o equipamento desse lugar a um projeto imobiliário, escolhas são escolhas, uma vez tomada não se volta atrás, mas com certeza deu a eles ânimo a levarem adiante a desativação da pista quando viram o autódromo carioca ser demolido mesmo diante do clamor da comunidade automobilística.

Mas o caso de Jacarepaguá era diferente, fruto de investimento que envolveu as três esferas de governo, o estadual (da Guanabara) que desapropriou o terreno da construtora Caledônia nos anos 60, do governo federal, que no início dos anos 70 construiu o novo autódromo seguindo os ditames mais avançados de construção de pistas de corrida, utilizando o conceito de áreas de escape criado pelo engenheiro paranaense Arthur Cornelsen (autor do projeto da primeira pista em 1966), e que foi comparado ao autódromo mais avançado da época, Paul Ricard, na França. E da prefeitura, que a partir de 78, quando tivemos a primeira prova de F1 no Rio de Janeiro, em que a equipe Fittipaldi/Copersucar teve um dos seus mais emblemáticos pódiuns, passou a gerir o autódromo através da Riotur.

No início, revezando com Interlagos e depois, por uma década, recebendo a F1, a cidade incorporou o autódromo ao seu leque de atrações e eventos, sediando provas nacionais relevantes, como a primeira corrida feita por carros movidos unicamente a álcool, saída para a crise energética que ameaça paralisar as competições automobilísticas no país.

Outras categorias tiveram seu brilho aqui, Stock-Car (ainda com os Opalas, depois Ômegas e até chegarem nos Vectras tubulares), Copa Fiat, Grupo N, F-Vê, Super Vê, Brasileiro de Marcas e Pilotos (Copa Shell), F-3 Brasil, Copa Marserati, Endurance, F-Truck, trazendo público e dinheiro para a cidade.

A partir de 1990, com a ida da F1 em definitivo para São Paulo, o autódromo se reinventou, sendo remodelado para receber primeiro a MotoGP e depois F-Indy, atual Indycar, que teve como vencedor de sua primeira corrida o piloto André Ribeiro (in memorian).

Era o único autódromo do país, e um dos poucos do mundo, a receber chancela de três categorias únicas do esporte a motor: F1, MotoGP e F-Indy. Poucos autódromos do mundo, hoje em dia, têm essa qualificação de altíssimo nível. 

Então, foi com horror e estupefação que vimos a demolição do autódromo ao longo dos anos, manietado, tendo seu traçado reduzido, sendo vandalizado, tudo para inviabilizar o seu uso e justificar seu esbulho por parte daqueles que deveriam zelar pela sua manutenção como equipamento esportivo e motor econômico do turismo e do lazer da cidade e do estado.

A partir de 2012, a cidade ficou órfã do autódromo, mas não importava, porque era em nome de algo "maior", e os grandes eventos aconteceram, os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo, principalmente o primeiro, não sem que a sociedade protestasse contra, afinal estávamos sendo transformados em cidadãos subalternos à chamada "família olímpica", em que se estava concentrando recursos monumentais para um evento de duas semanas que não se repetirá em pelo menos uma década ou mais.

Passados 12 anos da demolição do autódromo, 10 da Copa e 8 dos Jogos, qual foi o legado da cidade?

Ganhamos uma nova cara urbana com a repaginação do Centro da cidade, com o Porto Maravilha, um novo modal de transporte, o VLT, uma nova via expressa, a Trans Olímpica, mas perdemos um equipamento esportivo que faz muita falta até hoje.

A renda do carnaval carioca, somada com a do Revéillon, são os dois principais trunfos do turismo carioca, recentemente o show da cantora Madonna deu uma injeção significativa de dinheiro nos cofres públicos, mas não dá pra cidade ficar se apoiando nessas situações pontuais, é necessário investir em outras formas entretenimento.

Depois da pandemia de 20/22, assistimos a um gradativo aumento da popularidade de eventos ao ar livre, e as corridas têm sido um excelente exemplo disso, nem precisa falar dos eventos internacionais, como a MotoGP, Endurance ou F1, nesse último final de semana, assistindo à Stock Car em Cascavel, havia público significativo nas arquibancadas, mesmo sob um frio de 13 graus, mesmo com toda aquela situação da enchente, apesar da região próxima não ter sido gravemente atingida, pode até ser um exemplo isolado, mas as pessoas estão mais dispostas a sair do mundo virtual e vir para eventos onde elas possam ter experiências sensoriais que nenhuma TV de 50 polegadas pode proporcionar.

Todo esse introito até aqui foi para localizar para quem não está afeito, ou já esqueceu, da história que está por trás de tudo, e como sempre digo, é importante sabermos o passado para entender onde estamos e saber para onde estamos indo.

O projeto está bem adiantado na parte que diz respeito às compensações imobiliárias, trata-se de uma ação de largo espectro da prefeitura em aproveitar áreas urbanas infraestruturadas que foram abandonadas ou subutilizadas ao longo dos anos, e que hoje possuem baixa densidade populacional ou um significativo poder de retorno financeiro, considerando que estamos falando de áreas urbanas consolidadas e não terrenos de proteção ambiental.

Já o terreno do autódromo, é uma área conhecida, que já deu muita dor de cabeça pra prefeitura, o antigo Campus Fidei, área criada para receber uma missa campal quando da visita do Papa, que foi arrasada pela chuva e o evento acabou sendo transferido às pressas pra praia de Copacabana.


 

Em algum momento, não me lembro e não vou apelar pra procurar nas postagens anteriores, eu me referi a esse terreno como elegível para a construção de uma nova pista, por possuir igual tamanho (é até maior, inclusive), estar numa área pouco povoada, para evitar a especulação imobiliária, e, de preferência, ter algum projeto de proteção ambiental em seu bojo, já que o lugar, pra quem lembra, era um aterro feito às pressas, sem nenhuma condição de se construir edificações.

Isso foi lá em 2010, 2011, lembro de ter estado em reunião com o Vereador Carlo Caiado, onde ele me mostrou a proposta de um outro terreno, bem menor, e ter até defendido essa proposta numa reunião realizada no Clube de Engenharia, onde quase apanhei, mas a ideia, se na época não era viável, hoje se torna mais palatável.

Hoje, 2024, diante do que aconteceu no Sul do Brasil, ninguém vai ser louco de propor alguma coisa sem contrapartida ambiental, a região é frágil do ponto de vista do solo, uma região alagadiça, com manguezais, e com uma ocupação desordenada e predatória, então a proposta é de um autódromo com um parque em volta, para proteger não só o solo circundante como também toda a região, ordenando o uso do solo e limitando sua ocupação, protegendo assim as próprias pessoas que moram nesses lugares.

Outra coisa é que terão que ser feitas grandes obras de macrodrenagem, afinal são mais de 1.700.000m3, quase o dobro do terreno original do autódromo, e no seu entorno, para viabilizar vias de acesso, e quem sabe no futuro, até mesmo as equipes montem suas operações vizinhas ao novo autódromo, além disso existem previsões de investimento de um futuro VLT substituindo a atual rede de BRTs e expansão das estações e até mesmo operações especiais em caso de eventos importantes.

No vídeo da Audiência Pública temos um importante depoimento do biólogo Mauro Moscatelli, que defende a implantação do autódromo como forma de frear a ocupação desordenada do solo, como já está acontecendo na região, melhor uma pista de corrida com amplas áreas livres em volta e uma vegetação ciliar preservando o solo do que um amontoado de casas, num lugar sem saneamento básico, se tornando assim um risco para quem mora ali.

O investimento é alto, 600 milhões de reais, o dobro do que foi proposto a uma década atrás no malfadado projeto de Deodoro, que aí sim seria um crime ambiental sem precedentes, porque iria se derrubar um remanescente de mata atlântica em nome de um projeto multo mal explicado, que contrariava vária diretivas técnicas e que foi barrado várias vezes pelos órgãos ambientais.

A exemplo do autódromo original de Jacarepaguá, construído sobre a restinga de Itapeba que depois foi acrescentado um grande aterro com material retirado da lagoa adjacente, dando a ele o formato triangular que temos hoje, o impacto ambiental não será tão relevante do que se estivesse sendo implantado em uma área preservada, hoje se trata de recuperar essa área para que ela sirva para a sociedade como algo útil e não como problema a ser resolvido.

Para quem pergunta onde me encaixo nisso, eu apenas respondo que sou uma espécie de observador, vendo hoje sendo levadas adiante as bandeiras que levantamos há mais de uma década, enfim, nada como o tempo para desmentir ou dar razão às nossas convicções, e vendo hoje os mesmos personagens que no passado estiveram dentro dessa luta, em alguns momentos equivocados defendendo propostas inviáveis, mas que souberam dar a direção certa a um pleito mais do que justo.

Aos que protestarão em nome da moralidade do gasto público, no que concordo, quero acreditar que dessa vez a coisa será feita de forma transparente, com uma concessão de trinta anos à iniciativa privada, que arcará com várias responsabilidades e terá de construir o autódromo primeiro para depois poder exercer o direito sobre as contrapartidas imobiliárias concedidas no contrato.

Dessa vez o projeto do novo autódromo vem dentro de um projeto de âmbito maior, para corrigir anomalias e buscar soluções de problemas que foram surgindo ao longo dos anos, não é uma iniciativa individual com um plano de negócios desconectado do plano diretor da cidade, até porque algo desse porte afeta significativamente todo o seu entorno, e como dizem no vídeo da audiência, a cidade é uma coisa dinâmica, viva, que está sempre mudando, mesmo contra a vontade de seus governantes.

No atual momento as coisas estão a sair do plano das ideias para o, literalmente, concreto, ou seja o planejamento agora se dará na adequação do projeto ao solo, o projeto executivo, projeção de gastos de materiais e tempo de execução da obra, um longo caminho pela frente mas o pontapé inicial está dado, e havendo vontade política em se fazer, acredito que acontecerá.

Ainda acontecerão outras audiências, mas essa de hoje foi a culminância de várias reuniões realizadas desde 2019, e agora parecem bem mais fundamentadas do que a proposta anterior de Deodoro.

Aqui embaixo está o vídeo na íntegra da audiência pública, começa no 2:22 :



E quanto ao blog, continuará ativo quando tiver novidades, mas o mérito todo é do movimento Pró-Autódromo, que pegou o bastão quando decidi parar por exaustão do assunto, e que, apesar de tudo, conseguiu levar adiante uma proposta que parece ser sólida e tem bastante chance de dar certo, e também do Vereador Carlo Caiado, que nunca desistiu da ideia de termos de volta um autódromo digno desse nome em nossa cidade.

Estamos voltando.

 


12/24/2022

Novidade para 2023, o blog vai virar live

 Olá pessoal, faz tempo que não apareço por aqui, nem mesmo pra falar dos dez anos do fim de Jacarepaguá, mas haverá tempo para falar nisso, o momento agora é de apresentar uma novidade (pelo menos para mim).

Vou passar a fazer lives semanais, falando de automobilismo, autódromo, carros de corrida, histórias de bastidores, um bate papo de quem gosta de automobilismo, para quem gosta de automobilismo.

Mas não vou estar sozinho nessa empreitada, comigo estará o meu amigo de longa data James Azevedo, o Mr Indy, o sujeito que é uma enciclopédia da Formula Indy e conhece um bocado de F1, estatisticas e tudo mais.

Em breve sairá o primeiro episódio do programa, que ainda nem tem nome, eu cunhei um bordão que usava nas minhas filmagens do autódromo de Jacarepaguá que era : "Nos vemos na pista", na falta de um melhor vai ser esse mesmo, apesar de que estou me inclinando a colocar "Roda Murcha" pra não me levar muito a sério.

Enfim, será um ano de novidades.

Feliz natal e boas festas a todos, e vamos em frente.



5/24/2021

André Ribeiro, o Rei de Jacarepaguá

Foi um dia ensolarado, quente, como todos os dias de março costumam ser, às vezes encerrados com uma chuva torrencial, uma temeridade para o que queriam fazer, uma jogada de mestre do prefeito Cesar Maia: trazer a então recém-descoberta (pelos brasileiros, claro) Formula Indy, a IndyCar Word Series, que estreava no país num circuito de formato inusitado, um trapezóide-oval, onde as tomadas de curvas mais agudas exigiam uma freada forte e troca de marchas, um desafio para os pilotos, além do sol e calor inimagináveis para aqueles norte-americanos acostumados às temperaturas bem mais brandas do hemisfério norte.

Naquela época eu já gostava muito de automobilismo, trabalhava numa financeira, mas nem de longe imaginava ir assistir à corrida, ingressos com preço salgado. Na época eu nem carro tinha pra ir lá longe no autódromo, um dia meu pai me liga e pergunta se eu queria ir ver a corrida, depositou o dinheiro na minha conta e mandou comprar os ingressos.

Setor norte, lá junto da saída pra grande reta, longe dos boxes, é que os melhores já estavam esgotados e eram bem mais caros nas mãos dos cambistas, papai não se importou e tocamos pra lá no sábado, bem cedo pra assistir aos treinos, dormi na casa dele pra domingo ir pra corrida.

Jacarepaguá em dias de grandes eventos era mais complicado de ir do que normalmente, se naquela época ir assistir uma Copa Shell era só deixar o carro estacionado do lado de fora, para esse evento foi feito um esquema de estacionamento no Riocentro, que para quem conhece é cerca de 1 km do autódromo.

Deixamos o carro naquele estacionamento monstruoso do centro de convenções e fomos andando pela lateral da Abelardo Bueno, fechada para veículos particulares, mas com intenso movimento de carros credenciados, caminhões, ônibus levando o pessoal vip, pois os boxes normais viraram uma imensa área de convivência e em frente à reta principal foram construídos os boxes estilo Indianápolis, com uma pequena mureta e as torres dos chefes de equipe.

No caminho, vários vendedores ambulantes, de camisas, chapéus, toalhas, chaveiros, que jocosamente meu pai chamava de toureiros, porque eles ficavam abanando seus produtos na frente dos passantes.

Quando chegamos ao portão de acesso, já ouvíamos os carros passando na pista. O uivo dos motores passando pela reta era impressionante, para quem tinha estado uma década antes assistindo a F1, era diferente, os motores turbos tinham uma assinatura sonora singular, como também o cheiro de etanol, sutil, que impregnava o ar.

Lá dentro, a balbúrdia. A organização do evento tinha que providenciar rádios para que os espectadores acompanhassem a corrida com a narração da rádio oficial da prova, foi um fiasco, eram uns radinhos chineses, coloridos, emborrachados, tinha um deles comigo até uns anos atrás e acabei jogando fora como sucata, uma pena.

Os autofalantes das arquibancadas alternavam entre a narração da prova e o locutor local, ouvíamos mal e mal alguma coisa, mas dava pra entender o que estava acontecendo, como tínhamos estado no treino de sábado, sabíamos que André Ribeiro largaria na segunda fila, ao lado de Greg Moore, que era casca grossa, podia dar problema.

Ficamos ali, torrando no sol, que naquele dia de fim de verão estava até agradável, aguardando a largada, naquele ponto da arquibancada estava cheio, mas não a ponto de ficar insuportável.

Vieram os carros, duas voltas de apresentação, havia uma coisa: era praticamente impossível vê-los passando na sua frente, ou você via eles vindo ou eles se afastando, a velocidade deles era altíssima, e isso contando que eles estavam saindo da curva 4, que era a mais "lenta" do circuito.

Não lembro muito dos detalhes da prova, mas lembro vivamente quando eles entraram na reta e lá na frente o safety car abriu para o boxes, e, simultaneamente, os 27 carros alinhados dois a dois, aceleraram num estrondo abafado e agudo, envolvido numa nuvem de etanol cuspida dos motores que deixou o ar quase irrespirável onde estávamos, isso se repetiu na volta seguinte, e na outra, até que os carros começaram a se desgarrar um dos outros, mas o cheiro persistia, impregnado nas nossas roupas, parecia que se alguém acendesse um fósforo o ar se incendiaria, então formou-se uma fila onde aqui a li se viam disputas de posição, muitas na chegada da 4, um ponto de frenagem delicado, vindo da 3, praticamente uma "reta torta". 

De onde estávamos conseguíamos ver até o fim da reta, meio indistinguível por conta da névoa de calor que emanava do solo, mas víamos claramente quando entravam na 1 por conta do relevê, a dois ficava encoberta pela torre e pelos boxes, mas conseguíamos ver a aproximação da 4 pra 3, que era sempre emocionante porque as ultrapassagens se davam praticamente embaixo de nossos pés.

Na volta 11 (chequei na internet, lembro do acidente mas não lembrava a volta), um carro bate forte na saída da 4, uma pancada seca, um ruído alto, vieram os carros de socorro, umas picapes GM amarelas que anos depois seriam o pivô da crise que acabaria com a gestão da PPE, mas isso é outra história.

A corrida prosseguiu, calor, desci algumas vezes para comprar água para nós dois, papai não arredou pé do lugar onde estávamos e me atualizava cada vez que voltava do périplo de descer e subir as arquibancadas.

Perto do final, uma bandeira amarela juntou o pelotão, lá estava ele, o carro do brasileiro, com sua sua pintura, amarela/preta/vermelha, atrás duas Penske/Malboro, os carros mais poderosos da categoria, eu não sabia na época, mas a Tasman, equipe do André Ribeiro, era pequena, mas mesmo com aquele carro sem tantos recursos tinha conseguido bons resultados no ano anterior. A ameaça dos Penske era real, mas ver um brasileiro ali, liderando a corrida depois de ver Gil de Ferran e Emerson Fittipaldi afundarem na classificação por problemas nos carros, já estava bom demais.

Relargada, o cheiro do etanol nem incomodava mais, os carros passam colados na primeira volta, mas pouco a pouco o carro do brasileiro se afasta e termina a prova com uma confortável vantagem de mais de 2 segundos, o que para a categoria equivalia a um binóculo, além de se tratar de ter derrotado a equipe mais poderosa do grid.

A volta do vencedor foi indescritível, para onde se olhava era um mar de braços acenando camisas, bandeiras, bonés, assistíamos à história ser escrita na nossa frente, um brasileiro ganhando a primeira corrida em terras brasileiras prometia um futuro promissor para a categoria e havia até quem imaginava  mesmo uma mudança de hábito na preferência do brasileiro pelo esporte a motor, órfãos que estávamos desde a morte de Ayrton Senna em maio de 1994.

André ainda teria uma carreira na Indy, correu pela Penske, mas resolveu parar ainda jovem, com 32 anos, em 1998, e foi cuidar da vida, administrando uma rede de concessionárias pelo país e ainda ajudou a promover categorias como a F-Renault e F-Clio.

Em 2005, quando essas categorias passaram pelo circuito de Jacarepaguá, já seriamente ameaçado pelo Pan 2007, estive no autódromo, já representando o blog, cobrindo o evento, assisti à homenagem que fizeram a ele, levando o troféu e o carro.

À esquerda na foto, o pequenino André, me impressionou muito a estatura dele, parecia uma criança.
O carro com que ele venceu a corrida


Na época não lembro se cheguei a falar com ele, havia muita pressão política, muita gente tinha medo que num ato espontâneo o piloto falasse algo em defesa do autódromo, mas pelo menos pude tirar as fotos bem de perto,  tirei uma com ele mas a minha valente kodakinha digital falhou.

Mas voltando aquela corrida de 96, lembro que voltando para o estacionamento, meu pai exultante de ser "pé quente" e assistido à vitória de um brasileiro, viu um daqueles ambulantes "toureiros" fazendo uma queima de estoque de camisas e comprou duas, uma pra mim e outra pra ele, camisa que guardo até hoje como recordação daquele dia.

Agora isso é passado, um passado que relembro com um sorriso no rosto, uma lembrança boa do meu pai, que se foi, aos 91 anos de idade, há duas semanas, dormindo, em casa, como ele queria. Só lamentei não ter estado ao lado dele nesses momentos finais por conta da pandemia, já que trabalho com equipamentos hospitalares, e seria última pessoa possível a estar perto de uma pessoa enferma.

A morte prematura do meu xará André me surpreendeu, principalmente porque ele vinha lutando contra um câncer muito cruel, mas pouca gente devia saber, pois foi discreto até o fim.

Sou grato a ele por ter proporcionado não só a mim e a meu pai, mas também a milhares de brasileiros que estavam naquele dia no autódromo e outros milhares que assistiram pela TV, um momento de felicidade.

Descanse em paz, pequeno grande homem, as pistas dos céus estão abertas para você.


2/25/2021

Live com Rodrigo Mattar!

Oi gente, fazia um tempo que não escrevia por aqui, com tanta coisa acontecendo, o cancelamento de Deodoro, a eleição do Paes, a possibilidade da realização da F-E no Parque Olímpico, fiquei devendo uns posts.

Mas em compensação temos a live canal do Rodrigo Mattar, em que falamos disso e mais um pouco, lembrando o passado e pensando o futuro.

Com vocês, este que vos escreve na live do canal A Mil Por Hora:

 



11/19/2020

Não em nosso nome

Hoje teve mais um capítulo da novela Camboatá, tal como a NASCAR, estamos em um Extended Time, como se fosse possível alguém ainda achar possível arrancar um parecer favorável para a aberração de se construir uma pista de corrida em cima de uma floresta.

O placar foi de 10 a 3 pela procastinação, digo, pelo reenvio do processo à empresa do consórcio para que ela explique ou corrija os pontos que foram elencados pelo INEA no parecer, que foi amplamente favorável ao NÃO DEFERIMENTO do licenciamento ambiental.

Os três votos a favor pelo indeferimento foram de muito peso: UERJ, MP e CREA, os três foram unânimes em declarar impossível, diante do que foi colocado no relatório de mais de 190 páginas, a construção do autódromo sobre a floresta do Camboatá.

A verdade é que quatro conselheiros foram trocados para esta reunião, e o próprio presidente do INEA se declarou incompetente para julgar, já que estava no cargo há apenas um mês. Mas duvido que esse processo, já amplamente divulgado pela imprensa, não seja do conhecimento de quem está lá dentro, principalmente pelas implicações políticas.

Essa história se arrasta há dois anos, desde que o patrocinador da campanha eleitoral do atual prefeito levou o representante do consórcio a Brasília, com o aval da prefeitura para garimpar um eventual apoio à proposta que tinha sido varrida para debaixo do tapete depois dos Jogos Olímpicos pelo então prefeito Eduardo Paes.

De lá pra cá ela recebeu o apadrinhamento de várias pessoas, até mesmo do presidente da Liberty Media, mas desde que o calhamaço de páginas do parecer do INEA aterrissou na mesa do Ministério Público, ficou claro que a menos que se fizesse muita pressão política, o autódromo em Deodoro poderia ser considerado morto e enterrado.

O representante do consórcio conseguiu com seu "jus esperneandi" prorrogar por mais algum tempo a esperança de destruir a floresta, mas a votação dos conselheiros condicionou o reenvio dos documentos ao consórcio à apresentação e avaliação de outras áreas. Nenhum deles desconsiderou o parecer e todos concordaram com o INEA que a construção do autódromo no Camboatá seria um crime ambiental. Logo, a vitória do consórcio foi uma vitória de Pirro, pois além de gastar mais dinheiro em um contra-parecer inútil, terá que levar seu circo para outro local, fora da floresta.

Já do ponto de vista do interesse comercial e do esporte, o autódromo de Deodoro  tornou-se inviável, visto que a empresa do consórcio, além de falhar em deter os direitos de transmissão da F1 por não apresentar garantias financeiras, ainda conseguiu perder a MotoGP, ou seja, lá fora ninguém vai querer fazer negócios com essa pessoas ou prepostos dele,

O que resta? Oferecer o autódromo para eventos nacionais? Pode ser, mas quem vai pagar para usar uma estrutura megalômana projetada para públicos enormes de eventos internacionais?

O eixo Rio-MG possui hoje três autódromos, na época da demolição de Jacarepaguá só tínhamos Interlagos (em SP) como opção, hoje temos Curvelo e Potenza (Juiz de Fora), além de uma pista particular em Campos dos Goitacazes que é alugada para Track Days. Temos o VeloCittà em Mogi Guaçu, este de propriedade da Mitsubishi Motors do Brasil, mas que também recebe eventos particulares, o de Piracicaba, que recebe eventos regionais, e a Fazenda Capuava, particular, mas que abriga eventos de track day regularmente. Ou seja, estamos bem atendidos de pistas para todos os gostos e gastos, sendo que o diferencial do Rio seria pela sua atratividade turística, que convenhamos, Deodoro não possui nenhuma.

O país possui alguns autódromos abandonados, como Brasília, que passa pelo mesmo processo de sucateamento que Jacarepaguá sofreu antes de ser demolido, com o agravante que não existe motivo para tal, já que sequer existe demanda imobiliária sobre ele, porque não se pode mudar o projeto urbanístico do Plano Piloto. Temos Curitiba, que está numa lenga-lenga de ser ou não destruído para, também, fins imobiliários. Pelo tempo e esforço despendidos pelo consórcio, e pelo seu apelo de deixar um "legado", poderiam ter recebido alguma atenção já que são duas pistas com homologação internacional para grandes eventos. Já que o objetivo é o esporte a motor e não especulação imobiliária, creio.

Oras, se a demanda de praças para o esporte a motor é tão pequena que "sobram" pistas abandonadas pelo país, por que se construir mais uma, ainda mais em nome de eventos que não virão mais, por quê? 

Não em nome do esporte a motor, não carregaremos esse fardo de sermos responsáveis pela destruição de uma floresta, está na hora de os pilotos brasileiros se posicionarem claramente a respeito disso. Se antes tinham receio de contrariar fortes apelos econômicos devido ao medo do país não receber mais a F1, isso acabou, a Liberty assinou com SP mais cinco anos de contrato para realizar a corrida, a Fox/Disney assinou por mais seis anos de transmissão da MotoGP para o Brasil, se temiam perder espaço no cenário internacional ele acabou, o que restou agora é barrar essa obra insana de construir um autódromo sobre a floresta do Camboatá em nome de algo que não nos representa.

Não existe legado olímpico, ele é hoje apenas um monte de estruturas enferrujadas à beira de uma lagoa, esperando a demolição definitiva para dar lugar a um pardieiro de paliteiros caros, e o autódromo, uma vez demolido, dificilmente voltará para onde era.

A menos que, daqui a dez dias, o novo prefeito seja o algoz de Jacarepaguá. Ele já se declarou contra o autódromo em Deodoro, que cumpra sua promessa, ele tem em seu staff uma pessoa com quem eu dialoguei várias vezes sobre uma alternativa para a construção de uma nova pista, se eles tiverem um mínimo de bom senso podem retomar essa ideia, já que é a construção de um autódromo dentro da cidade do Rio de Janeiro, basta querer, se quiserem estarei disposto a  ajudar, como já fiz antes, mas sem colocar em risco a pouca diversidade ambiental que resta na nossa cidade.

Autódromo no Rio sim, em Deodoro NÃO!


11/11/2020

Fim da novela (por enquanto)

Bom, faz cinco meses que escrevi pela última vez aqui, e tinha prometido que só voltaria a falar do assunto quando houvesse algo realmente relevante, e esse dia chegou

Durante esses seis meses assistimos a várias idas e vindas, participei de uma live que teve convidados o autor do SOS Floresta do Camboatá e um amigo de longa data que não via há algum tempo, e ele revelou ser amigo pessoal do atual presidente da república (no minúsculo mesmo).

Isso explicava a insistência com que vários atores políticos, primeiro o prefeito e depois o governador afastado, se empenharam em fazer a proposta (absurda) do autódromo ir para a frente, além dos interesses obscuros, estava claro que o lugar era totalmente inapropriado, bem como o momento econômico e social que estamos passando.

Isso foi lá começo do atual governo (estadual e federal), dois anos atormentando nossas cabeças com uma proposta descabida diante do cenário que estamos vivendo.

Aos poucos o véu foi se descortinando, primeiro com o Rubem Berta com uma matéria explosiva contando os descaminhos do dinheiro da empresa empreendedora do projeto.

Aos poucos as informações vinham chegando e cada vez mais nebulosas, no início de 2020 a Globo, através do seu braço de canal pago, SPORTV, anunciava o fim da cobertura da motovelocidade no canal, o que pegou todos de surpresa.

Surpresa que não foi maior quando a RioMotorSport se apresentou como detentora dos direitos de transmissão e apresentou a rede FoxSports como emissora oficial da categoria para o Brasil.

A FoxSports rapidamente se adequou, aumentando sua equipe, e com muita competência tocou o barco, transmitindo as corridas, mas alguma coisa aconteceu no meio do caminho que quase pôs tudo a perder.

Primeiro, a Fox passa por um processo de transição delicado, a Disney comprou a empresa nos EUA, e lógico, todas as suas afiliadas, e ela já possui um canal de esportes, a ESPN, pela lei ela só poderia ter um canal e vender o outro, mas mesmo assim, com autorização do CADE, continua operando as duas empresas no país.

A Disney repassou o valor das cotas de transmissão à detentora dos direitos de transmissão para que ela  pagasse à DORNA, mas isso não foi feito, colocando em risco a continuidade da transmissão da temporada com um forte prejuízo à imagem emissora, o que obrigou a Disney a assinar um contrato de seis anos de exclusividade de transmissão para "cobrir" o prejuízo causado pelo calote.

Na mesma ocasião estava em jogo a audiência virtual que tinha sido desmarcada duas vezes, por conta da pandemia, e que foi literalmente empurrada para ser feita às pressas depois de um decreto do governador (agora afastado) Witzel. 

A audiência durou horas, as prerrogativas apresentadas pelo consórcio foram vagas e imprecisas, milhares de empregos, milhões de dólares, milhões de turistas, pareciam que estavam vendendo um bonde pra mineiro, mas a coisa não é bem assim.

Um dos promotores, na sua argumentação, falou que, primeiro, a empresa não era dona do terreno, quem era o proprietário de fato e de direito era o EB, e que só haveria o repasse à União quando fossem transferidos cerca de 300 milhões de reais (que era a quantia que tinha sido estipulada lá atrás como a verba para a construção do autódromo), e isso só ocorreria se todos os documentos fossem aprovados e dentro do prazo legal, o que estava muito longe de ser verdade, como se anunciava.

Naquela mesma semana eu conversei com o Roberto Kaz, jornalista da Piauí, que tinha participado com outro jornalista numa live que o Flávio Gomes, do site Grande Prêmio, realizou ás vésperas da audiência, e ele me passou informações mais graves ainda sobre a situação do dono da Rio Motor Sports. 

Com tudo isso, fiquei de certa forma "tranquilo" em relação ao desfecho dessa novela, poderiam até mesmo mover mundos e fundos para conseguir construir o autódromo, mas será que o preço valeria a pena, e o pior, daria para ressarcir todos os envolvidos na empreitada?

O golpe final veio logo depois com o anúncio que a RioMotorSports estava com os direitos de transmissão e que estava negociando uma nova emissora.

Bom, pensei, agora era certo, com a F1 as portas e as pernas se abririam para o que eles quisessem, afinal brasileiro "adora" F1 (não obstante os cada vez mais baixos índices de audiência da TV aberta), e com o governo federal diretamente interessado em uma agenda positiva, fiquei apreensivo.

Mas no mundo dos negócios o que manda o é o dinheiro, não adianta ter boa aparência ou amigos influentes, o que faz a roda girar é o dinheiro no caixa, e hoje a roda girou, não para quem se imaginava.

A Liberty Media aceitou a proposta da RioMotorSports por um contrato de cinco anos, mas tal como na MotoGP, a empresa iria apenas repassar os direitos a quem fosse realmente transmitir o evento, pegando na transação sua parte como intermediária, só que aqui no Brasil só tem uma emissora capaz de fazer esse trabalho, e essa empresa se chama Globo, tanto é que, depois do CEO da Liberty Media, Chase Carey ter feito até lobby pelo autódromo de Deodoro com direito a uma carta endereçada ao governador interino Claudio Castro, voltou atrás e procurou a SP Turis, administradora de Interlagos e pediu que chamassem a Globo para negociar.

Ao fim e ao cabo a novela F1 no Rio de Janeiro acaba aqui, mesmo que a Globo assine, ou não assine, ou a Liberty faça um pool de emissoras ou transmita tudo pelo seu canal F1 Channel, o importante que o lobby pelo autódromo em Deodoro encerrou definitivamente com essa situação.

Se a RioMotorSports vai continuar existindo eu não sei, se continuar, acho muito difícil que ainda tenham como objetivo construir algo no Camboatá, o destino daquele lugar é virar um centro de pesquisas de flora e fauna e, talvez, um parque ecológico.

Quanto a um autódromo na cidade do Rio de Janeiro eu a cada dia acho mais difícil, além do custo de se construir uma pista, o metro quadrado na cidade encareceu absurdamente por conta da especulação imobiliária em torno dos grandes eventos, o Parque Olímpico segue abandonado, sem dono, mas vários "donos" se agarram a ele como uma tábua de salvação, ou melhor, garantia de receber um dinheiro o qual não merecem ou não fizeram por onde merecer, enfim, quem tem que cuidar disso é o MP, o que aconteceu em Jacarepaguá, que, hoje, faz oito anos, foi um crime contra o erário público, e que tentam a todo custo esconder, fazendo pirotecnias midiáticas e contábeis, mas uma hora a conta vai chegar.

A opção viável seria reconstruir a pista dentro do terreno do Parque Olímpico, ao estilo Sochi, para, ao menos, receber categorias Master como a Stock Car ou a Endurance Brasil, mas quem aceitaria o barulho dos carros? Mesmo se tomando as medidas necessárias para reduzir os decibéis dos motores. Claro que é hipocrisia, porque eles aturam o Rock In Rio durante noites inteiras e não reclamam e nem impedem que aconteça.

Agora, uma pista no estado pode ser que aconteça, surgiu essa semana uma proposta para a construção de um autódromo em Cabo Frio,  o que me parece bem realista, desde que os empreendedores não venham com essa história de F1, isso é igual pote ouro no fim do arco-íris, se realmente fecharem com SP, a F1 só sai de lá na próxima década.

Se a coisa for séria e bem fundamentada, pode ser uma opção com o autódromo Potenza em Lima Duarte, para se formar um complexo de autódromos no sudeste, somando com o Curvelo e Velocità, para receber provas regionais e nacionais, deixando para Interlagos a honra de sediar a F1.

De resto vamos aguardar o próximo capítulo dessa saga, por hora poderemos descansar quanto ao futuro da Floresta do Camboatá, acredito que agora eles irão desistir dessa empreitada e partir para algo mais viável e menos polêmico.

8/05/2020

Camboatá resiste

Mais uma vez torno a postar, por conta dos últimos acontecimentos. No final do dia 03 de agosto de 2020, a Juíza Roseli Nalin, titular da 15ª Vara de Fazenda Pública do RJ suspendeu a audiência pública virtual convocada pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente porque, pasmem, o conselho foi criado de forma irregular.

Para entender melhor essa história vamos dissecar passo a passo: primeiro o EIA RIMA estava cheio de erros e foi feito pela própria empresa que postula a construção do autódromo. Essa empresa, além de ser a única postulante e ganhadora do processo de licitação(?), não possui capital para garantir a obra nem conhecimento prévio na construção e gestão desse tipo de equipamento, depois disso ainda temos a questão que dentro do projeto está prevista a construção de empreendimentos imobiliários, derrubando a floresta que está em cima de um terreno minado e que pertence a União - nunca foi dito ou prometido que o terreno seria dado para o empreendimento, mas sim ser cedido para a construção da pista, se há aí uma má interpretação de texto, seja ela intencional ou não, tem que ser explicada - e pra completar esse conselho, criado especificamente para ratificar essa história toda.

Outra coisa, a prefeitura trata como irrelevante uma floresta que existe naquele local antes do paiol do EB ser construído. Camboatá se refere a uma antiga fazenda que existia na região e que foi encampada pela União, seja a título de pagamento de dívida ou simples arresto para a formação do complexo que se tornaria a região quando da criação da Vila Militar no início do Século XX, e que fará (aí é a parte da piada sem graça dessa história), compensação da retirada das árvores para a construção do empreendimento.

A prefeitura, aliás, as três esferas de governo, não estão nem aí para nenhum tipo de mitigação ou compensação de espécie nenhuma de lugar nenhum em tempo nenhum, um governo que patrocina no espaço de um ano um dos maiores desmatamentos da floresta amazônica, libera toda a sorte de agrotóxicos possíveis para o agronegócio, não está minimamente preocupado com 200 hectares de mata atlântica dentro de uma cidade de milhões de habitantes, para eles é apenas mais um espaço para especulação imobiliária selvagem e ilegal que vem sendo praticada desde que se abriu o túnel do Joá descortinando as vargens de Jacarepaguá à sanha dos especuladores no início dos anos 70.

Aliás, temos que considerar também a questão do dinheiro público, no início prometeram tudo, além do terreno tinha também os propalados 350 milhões destinados para o autódromo que viraram fumaça junto com o próprio Ministério dos Esportes. Depois foi prometido que não haveria participação do governo na empreitada, já começa errado o governo dando terreno pra construção da pista, se é um particular que quer construir o autódromo, que compre o terreno e construa, não fique mamando na teta do governo esperando de boca aberta aquilo que não lhe é de direito.

Conheço muita gente, mas muita gente mesmo, que comprou essa ideia, seja pelos mais variados motivos, que colocou todas as suas fichas nisso, que quer essa pista pra livrar a cara por ter patrocinado a destruição de Jacarepaguá, aquele tipo de gente que quer no final de tudo estar certo em vez de ter razão.

Para esses só lamento, mesmo que esse autódromo, patrocinado pelo governo mas escamoteado por uma iniciativa privada de fachada, superfaturado, imoral (economicamente falando, diante da situação que não só o Brasil, mas o mundo passa hoje) e, principalmente, insustentável, seja construído, sua história suja estará a vista de todos, e mesmo que a história oficial apague os rastros, sempre restará alguém pra gritar que o rei está nu.

Esse é apenas mais um capítulo dessa história caótica, que mais parece alguém tentando roubar a prataria da cozinha do Titanic enquanto o navio afunda, contando que vai encontrar um bote disponível ou sobreviver à agua gelada com vinte quilos de talhares nos bolsos.

Ao movimento SOS Floresta do Camboatá só posso dar meus parabéns por estar conseguindo resistir a esse massacre que vem sendo feito desde 2010, quando anunciaram que iriam construir o autódromo ali, eu sempre fui contra, sempre coloquei a perspectiva que se deveria procurar outro lugar, eu mesmo cheguei a ir a vários lugares dentro do município para estudar espaços onde poderia se construir uma nova pista, mas a teimosia obstinada (ou seria ganância desenfreada?) de algumas pessoas persiste nessa ideia fixa.

A prefeitura alega que tem grandes planos, que vai fazer grandes projetos de recuperação, conversa, não consegue nem tapar buraco de rua, não vai fazer, sabem por quê? Não tem gente competente lá dentro pra isso, se quisessem em 2015 teríamos um novo autódromo, fora do Camboatá, no Gericinó, tem espaço lá pra isso, não é cláusula pétrea construir dentro do Camboatá, é apenas "um terreno" e não "o terreno", é uma questão de boa vontade, mas no momento o que vemos é má fé e interesses ocultos nessa história.

Quanto ao futuro do esporte a motor no Rio ninguém sabe, a Globo, através do programa Bom Dia RJ do dia 04 de agosto foi contundente, na voz do seu apresentador, Flávio Fachel, em apresentar a opção de se fazer uma corrida na enseada de Botafogo, assunto que já foi tratado aqui no blog, e que tem ferrenha oposição dos moradores do bairro, além do veto do IPHAN sobre a obra da arquiteta Lotta Soares e do paisagismo de Burle Marx, qualquer evento que se faça ali pode alterar as características arquitetônicas e paisagísticas do local, o maior parque urbano do mundo, do qual sinto saudades de caminhar nas tardes de sol nesses tempos de quarentena pandêmica.

Sempre há a opção de voltar à casa, o parque Olímpico, abandonado a própria sorte, refém de um grupo de empreiteiras denominado Rio Mais, cujo plano é transformar a restinga de Itapeba num paliteiro de prédios, inviável porque no rastro dos grandes eventos houve uma explosão de empreendimentos imobiliários impulsionados pelo crédito fácil dado pelo governo federal até 2016, de lá pra cá com  a crise financeira, o mercado imobiliário empacou, não se tem ao certo o número de imóveis vazios na cidade, mas basta dar uma volta para ver dezenas de placas de "vendo" e "alugo"  para perceber que oferta há, e muita, o que descartaria qualquer demanda para esses novos prédios num médio (eu diria até longo) prazo.

Não seria difícil construir um traçado nem que fosse para a F-E, dentro do Parque Olímpico, já temos precedentes como a pista do Canadá, construída dentro do complexo olímpico de Montreal, um parque que várias vezes por ano se transforma num autódromo, seja para eventos nacionais ou internacionais, ou mesmo o complexo de Sochi, na Rússia, para usar um exemplo mais recente. Como está hoje, o Parque Olímpico é apenas um monumento ao maior esporte nacional: o desperdício de dinheiro público.

Se houvesse interesse genuíno era só entrar em contato com as construtoras para retornar o autódromo para o Parque Olimpico, só que ele não existe. Aliás é estranho pedir que cedessem os direitos de uso do terreno, por algo que nem eles têm já que não cumpriram sua parte no contrato, ou seja, não usam e não abrem mão do direto de não usar, ficam sentados em cima, esperando dias melhores no horizonte, ou que simplesmente esqueçam o que aconteceu ali.

O cenário nacional do automobilismo está se virando como pode, tivemos uma bela prova de Endurance em Interlagos, e uma prova de Stock-Car (com novos carros, algo sempre bom) em Goiânia, mas ninguém sabe por quanto tempo poderá se manter esse estado de coisas, o automobilismo nacional sempre careceu de gente nos autódromos, a menos que se fizesse maciça divulgação e distribuição de brindes, os eventos regionais então, sempre foram quase que eventos secretos, perguntem pros paulistas a tristeza de ver as arquibancadas vazias em finais de semana com vários eventos acontecendo. Se nada for feito, daqui a pouco a Stock só vai passar no Youtube, como já acontece com a Endurance e o Brasileiro de Marcas, pelo menos populariza, mas é muito menos que um canhão que é uma TV aberta, ainda mais considerando nossa crônica falta de infraestrutura, em que fora dos grandes centros não se consegue uma internet decente nem pra assistir um streaming a 480p.

No cenário mundial a coisa piora mais ainda, Interlagos este ano não recebe a F1, a menos que haja uma reviravolta muito grande, mas pelo que parece está saindo para não voltar, além de sermos o segundo país no mundo em número de mortes pela Covid-19 ainda por cima a Liberty Media vinha discutindo a questão dos valores a serem pagos para a realização do GP, do qual não abria mão das taxas que ela cobra dos outros países, que por conta do um acordo que remonta aos tempos de Bernie Ecclestone, não eram pagos, tudo isso concorre para tirar o país do calendário da categoria.

Se serve de consolo, EUA, México e Canadá também tiveram seus eventos cancelados, a F1 se torna cada vez mais europeia, também com o cancelamentos dos eventos na Ásia, isso pode ser bom, porque trará novas pistas para o calendário, como a de Portimão que me parece muito promissora, além de Nurburgring (circuito curto, claro), Imola e Mugello, pode até ser que Zandvoort reapareça no final do ano, vai depender de como as coisas vão andar até lá.

Mas, voltando ao tema deste post, esse foi mais um capítulo da saga do novo autódromo fantasma, que parece cada dia mais longe e incerto, nesses oito anos desde a demolição da pista já surgiram as pistas de Campos, Juiz de Fora e Curvelo, todas privadas e acessíveis tanto para quem mora na capital (do Rio, claro), como no interior, se houvesse um pouco de boa vontade dos órgãos competentes já era hora de voltar com o Torneio Rio-Minas ou com uma Copa Sudeste e tirar a poeira dos carros e dos macacões de corrida.

Não podemos viver de passado, tenho imensas saudades do antigo autódromo, mas as forças que o criaram não mais se repetirão, os grandes eventos esperados para essa futura praça esportiva também não vão mais acontecer, pelo menos num médio prazo, o que resta é encarar a realidade antes que nem essa seja possível, precisamos pensar com modéstia e pé no chão, o tempo dos grandes arroubos acabou, o Brasil hoje é um pária internacional, ninguém vai querer fazer negócios aqui ou trazer eventos enquanto esse governo estiver no poder, e essa confluência de forças para a construção do novo autódromo vem direto dessa gente, e o que menos eles estão interessados é no esporte, pra eles é apenas fachada para interesses escusos, basta ver os esforços de tentar dar um verniz de legalidade nessa operação disfarçada de empreendimento privado.

É isso meus amigos, espero não ter que voltar a falar nesse assunto de novo, que a próxima postagem seja pelo sepultamento definitivo desse projeto ou então pela construção da nova pista fora da floresta, no Gericinó ou em outro local onde não se tenha um risco de um desastre ecológico como o que pode se consumar com a derrubada da floresta, sem falar do risco de tudo ir pelos ares. Caso as pessoas não saibam o que é uma explosão em área urbana, basta ver o que aconteceu ontem em Beirute pra ter uma ideía do que pode acontecer quando um bate-estaca se encontrar com uma bomba de 200 quilos enterrada no solo.




3/09/2020

Ayrton "Lolô" Cornelsen 1922 - 2020

Recebi a notícia hoje, mas ele faleceu a cerca de 4 dias em sua cidade natal, Curitiba, por falência múltipla de órgãos.
"Pai" do primeiro traçado de Jacarepaguá, deu um depoimento contando para o blog como foi a construção da primeira pista, da quantidade de turfa que teve que retirar para colocar a base que receberia o asfalto, de como ele traçou as curvas e relevês para tornar o traçado veloz e técnico, bem ao gosto da época, de carros com baixa potencia e pneus finos, em que a habilidade do piloto deveria sobressair na capacidade de manter e controlar a velocidade nas curvas.
Experiente construtor de estradas, entre elas a lindíssima Estrada da Graciosa, por onde já tive o prazer de passar algumas vezes, Ayrton deixa um legado não só de obras como de idéias, como a caixa de brita, criada no autódromo de Luanda, que revolucionou a segurança das pistas, que até então usavam perigosos postes e telas para segurar os carros desgovernados que viessem a sair do traçado.
Quando da demolição do autódromo de Jacarepaguá, não consegui contato com ele, mas soube que estava desgostoso com os acontecimentos, afinal não era apenas uma obra sua, mas um patrimônio público que desaparecia.
Foi-se um grande homem, pouco conhecido do grande público, mas muito estimado pelos os que o conheceram.
Descanse em paz, quem sabe lá um dia olhando para o céu não o vejamos projetando autódromos nas nuvens.

5/09/2019

De novo a farsa de Deodoro.

É, volta e meia a história retorna, então como fiquei oito anos com esse blog no ar defendendo um autódromo que só existe hoje nos sonhos e nos simuladores de corrida, sou obrigado, de novo, a fazer um resumão do que aconteceu, para entendermos em que estamos metidos hoje

O autódromo original (Jacarepaguá) foi construído no antigo terreno da FAB, tanto é que do lado dele até hoje existe o hotel de trânsito de oficiais, na época o terreno era usado para guarda de máquinas de terraplanagem da uma empresa que estava fazendo a urbanização do bairro do Camorim e imediações (ali nunca foi Barra da Tijuca, só nos panfletos das construtoras).
Nos anos 50 as corridas no Rio eram realizadas num arremedo de circuito na Barra junto ao canal, até hoje dá pra passar na curva inclinada que existe no contorno da Praça do Ó.
Em 1965, quando foi realizada a prova comemorativa do quarto centenário da cidade, uma série de acidentes mais ou menos graves acenderam a ideia de se construir uma pista fechada para realizar as corridas.
A Caledonia Empreendimentos estava de posse do terreno que tinha sido desmembrado da antiga fazenda de suprimentos da FAB, lá eles construiram uma pista e propuseram um projeto megalomaníaco de transformar tudo num clube que englobaria a pista, uma marina e um local para evento.
Claro que nunca saiu do papel, apesar de centenas de pessoas terem comprado títulos do empreendimento, o automobilismo era febre da classe média/alta da época.
No final dos anos 60, percebendo que a coisa não iria adiante, eles decidiram que iam demolir a pista (que já estava começando a ceder em alguns trechos) para construir um condomínio de casas.
Os pilotos fizeram um protesto pelas ruas da cidade, foram a programas de TV e o então governador Carlos Lacerda, prefeito do DF (ainda era naquela época), sensibilizado,  desapropriou o terreno.
A pista original funciona mais ou menos até o ano de 72, também graças a Interlagos que ficou dois anos em reforma e fez que vários eventos nacionais e até uma prova internacional de F-Ford viessem para o Rio, essa foi considerada a "época de ouro" do autódromo.
No início dos anos 70, com dois títulos do Emerson Fittipaldi na F1, o governo militar resolveu pegar o então autódromo e reformá-lo para um padrão internacional, aproveitando a onda ufanista do milagre econômico e do "país que vai pra frente".
Aí é que começam as coisas nebulosas, até aquela época o processo de desapropriação corria lentamente, o antigo DF tinha se transformado em Guanabara, a Caledonia tinha falido e se transformado em Territorial Agrícola. Antes do autódromo novo ser inaugurado em 77 ainda tivemos outra mudança em que a Guanabara foi extinta e transformada em município, perdendo assim seu status de cidade-estado, passando a ser um simples município.
Isso tudo criou uma confusão fundiária absurda, porque o ente autor da primeira ação não mais existia, e nem o antigo proprietário, e o governo militar já tinha enfiado muito dinheiro na obra, inclusive um monumental aterro hidráulico que retirou milhões de metros cúbicos de areia do fundo da lagoa para aumentar a restinga de Itapeba (nome original do lugar) em mais do dobro do tamanho.
Então, quando o autódromo foi inaugurado, ele não tinha dono nem escritura, era um direito de uso de uma massa falida cujo ressarcimento vinha sendo calculado a mais de uma década.
O imbróglio só foi resolvido nos anos 80 quando o governo do estado, detentor do processo original que herdou do estado da Guanabara, conseguiu chegar a um acordo com os advogados da massa falida, pagando o terreno com os recursos da caixa de previdência da PM e alocando o terreno no ativo do Rio Previdência como garantia e lastro financeiro.
Isso resolvia a questão fundiária mas não resolvia a questão de uso.
A cidade do Rio de Janeiro, através do seu órgão de turismo, a Riotur, entrou em guerra contra sua congênere estadual,a Turisrio, pela posse e uso do autódromo.
Foi feito um acordo no qual a Riotur, leia-se a prefeitura, garantia a permanência da F1 no Rio e em troca ela poderia gerir o autódromo.
Isso funcionou até os anos 90 quando num malfadado jantar pós corrida, o então prefeito Marcello Alencar veio pedir mais dinheiro pra realizar o evento no Rio
Naquela época, Bernie mandava muito na F1, a ponto de dizer quem podia ou não sediar uma corrida, tudo passava por ele, inclusive as taxas, e o Rio era uma das poucas cidades que não pagava valores exorbitantes, mas em contrapartida arcava com as despesas de preparar o evento conforme era solicitado pelos promotores
Bernie saiu do evento avisando que a corrida no Brasil seria a última devido a desacordo comercial, a CBA apavorada correu até São Paulo e procurou a então prefeita Luiza Erundina, na época eles tinham a pista de Interlagos original, imensa, com oito quilômetros de extensão, já bastante castigada pelo uso, já que desde de 1990 ela não recebia mais a F1, e consequentemente, reformas.
Em seis meses eles arrumaram a pista, encurtaram o traçado e conseguiram homologar junto a FIA, Bernie deu uma banana para o Rio e se mudou de mala e cuia para SP.
Com isso, sem sediar a F1, o acordo entre a prefeitura e o estado morria, a menos que se conseguisse alguma coisa, a Riotur iria perder o direito de usar o autódromo.
Aí entra a figura do Cesar Maia, sabedor do acordo costurado entre os governos, ele partiu para uma empreitada assim que assumiu a prefeitura, naquela época o estado ainda não tinha se interessado em pegar a pista de volta, mas a qualquer momento isso poderia mudar.
Ele criou um oval de milha e meia retificando algumas curvas do circuito, matando o kartódromo que existia atrás da curva Sul, fazendo uma pista para receber a F-Indy em 1994, evento que ficou quatro anos recebendo provas aqui no Rio, e por causa de uma desavença entre o prefeito e a empresa que ficou responsável por gerir o autódromo, a PPE (Paulo Júdice, Nelson Piquet, e Emerson Fittipaldi) a coisa desandou e o evento saiu do país.
O pivô da história foi que a F-Indy guardava seus carros de resgate em um dos boxes do autódromo e "pagava" um aluguel à PPE e um sujeito dentro da prefeitura quis participar do butim e foi barrado, daí saiu a fofoca.
Enfim, perdemos a F-Indy e de novo a quebra do acordo voltava a berlinda
Então o filhote do prefeito mais uns empresários espanhóis (DORNA, empresa que promovia o mundial de motovelocidade) trouxeram a categoria para o país, antes ela tinha corrido em Goiânia, cuja pista foi construída especialmente para a categoria e lembra muito Jacarepaguá em seu traçado.
A prova ficou aqui até 2003, quando houve outro desacordo comercial e a categoria foi embora, dessa vez a coisa foi desastrosa, pois barraram o inspetor de segurança da FIM (Federação Mundial de Motociclismo), o Sr. Charles Whitting (sim, aquele que morreu recentemente) que era a autoridade máxima da FIA para homologação de autódromos.
Claro que isso colocou uma mancha negra em cima da cidade, essa palhaçada era motivada principalmente pela briga entre o então prefeito Cesar Maia e o governador Antony Matheus, até porque havia mais um projeto megalomaníaco na mesa do prefeito: Os Jogos Olimpícos, mas para isso ele teria que pagar um pedágio fazendo um evento menor, no caso os Jogos Panamericanos.
Para isso ele queria o terreno do autódromo, um projeto parecido com o que foi feito para os Jogos Olímpicos, mas que ainda preservava a pista, mas incluía um estádio de futebol lá dentro.
Para evitar um desastre maior, o estado ofereceu em holocausto o terreno da Central do Brasil no Engenho de Dentro, onde eram as oficinas, só que o estado era fiel depositário, não dono, inclusive porque milhares de toneladas de material ferroviário e equipamentos pesados estavam guardados ali como lastro financeiro para pagamento de indenizações trabalhistas para os funcionários da RFFSA.
O terreno da rede ferroviária foi esbulhado para construir o estádio de futebol e os equipamentos ferroviários sumiram, por pouco a Baronesa e o acervo do museu não foram junto, mas a sanha assassina do prefeito destruiu o traçado norte do autódromo junto com o oval, restando apenas o circuito club, com pouco mais de três quilômetros.
Após o Pan, o autódromo retomou suas atividades, já com um planejamento futuro em reintegrar o oval e refazer o traçado norte, mas veio outra traulitada com o anúncio dos jogos olímpicos, aí a proposta era botar tudo abaixo e construir a pista em outro lugar.
Nós resistimos, a ideia era pelo menos termos "chave por chave" , mas em 2012 o Dudu meteu a retroescavadeira na reta principal e em menos de um mês nada mais restava do autódromo.
Aí que uma mente abençoada lembrou dos terrenos do EB em Deodoro, e aí a coisa fica mais sinistra, quem é do Rio deve lembrar que no Campinho existia o 1ºRecMec, batalhão de infantaria mecanizada, um dos mais antigos do Rio, anterior inclusive à criação da Vila Militar?
Pois é, o terreno foi vendido irregularmente pelo comandante da divisão de assuntos fundiários do EB para a região sudeste, fato que lhe rendeu a prisão e depois expulsão dos quadros da força,
mas o estrago estava feito, além de destruir uma unidade centenária, levou milhares de incautos a pagar por imóveis que nunca seriam construidos (ali não foi o único lugar vendido irregularmente).
Nesse rastro veio a ideia de "doar" o terreno do Camboatá, uma antiga unidade de que foi pelos ares em 1958, no que foi conhecido como um dos maiores desastres em unidades militares da história.
O lugar abrigava o maior paiol de munições da América Latina, com milhares de toneladas de explosivos, de bombas de 500kg a munição de revólver.
Isso tudo foi pelos ares, provocando pânico, mortes de destruição, tanto que passado o pior momento, o exército tratou de cobrir o que restou dos paióis com toneladas de terra e colocou um embargo de uso do terreno por 30 anos, o suficiente para que esquecessem o que tinha havido ali.
De fato esqueceram, tanto é que com milhares de hectares devolutos pertencentes ao EB, resolveram dar para construir a nova pista a única área que era terminantemente proibida de se construir algo em cima.
Assim, passadas três décadas, uma floresta cresceu sobre os paióis enterrados, graças aos fosfato dos explosivos, árvores enormes subiram, carregando em seus troncos balas de canhão e de revólver entranhadas em suas raízes.
Um lugar tão perigoso que só era liberada a entrada para oficiais em treinamento avançado, e havia a proibição de se fazer fogueiras no terreno.
Há cerca de cinco anos, quando começaram a falar sobre o destino do terreno uma tropa de jovens oficias estava fazendo um treinamento de sobrevivência no local e um aluno teve a brilhante ideia de fazer uma fogueira, claro que eles foram fazer um cima de uma granada enterrada que explodiu matando um soldado e ferindo vários outros.
O EB abafou o caso e disse que iria fazer uma varredura para tirar os explosivos, o que fizeram na verdade foi abrir o mapa da antiga instalação militar e retirar o que estava ainda do que restou dos paióis, o que estava espalhado no mato só foi retirado da superfície, a cerca de meio metro de profundidade.
Para se ter certeza de que não haveria mais nada ali, era pra terem retirado um camada de pelo menos cinco metros de terreno e todas as arvores, o que não foi feito, é claro, tanto pela falta de tempo, quanto pelo absurdo de caro e o perigo envolvido.
E temos o agravante, ceder o terreno é uma coisa, mas quem vai pagar a obra? Até 2014 havia uma promessa de 350 milhões de reais rubricados em nome do ministério do esporte para a construção da nova pista, esse dinheiro não só desapareceu, como também o ministério deixou de existir, o valor projetado é de quase um bilhão, sem falar que o prazo é irrealizável, ainda mais nas condições em que o país se encontra, prometeram que não haverá dinheiro público, claro que não, porque ele não existe, visto que os cortes chegaram até os militares, cuja perda será de 43%, nem preciso falar da educação e demais setores, e a plena recessão que estamos vivendo, para perceber o quanto isso é loucura da cabeça de quem só pensa em jogar pra torcida sem se preocupar com o mundo real.
A Liberty Media (dona da F1 e com participação da MotoGP) não vai botar um cent de dolar aqui, ela quer ganhar e não gastar.
Nem preciso dizer que o malfadado Parque Olímpico, hoje em ruínas, que recebe o Rock in Rio, é terra de ninguém, pois as construtoras que fizeram as obras não receberam o que foi combinado e não terminaram as obras pós-evento (que incluiam o desmonte de algumas estruturas), o velódromo foi incendiado, o Maria Lenk tem problemas estruturais sérios ( aquilo é um aterro, lembrando), os outros equipamentos não passam de galpões estilosos.
Eu venho defendendo há muito tempo que o autódromo retorne para lá, mas tem um grupo de obstinados teimosos que vêm carregando a bandeira de construir a pista em Deodoro sem se ater a realidade dos fatos de que é uma obra cara, cujos problemas infraestruturais serão gravíssimos (há nascentes lá dentro), problemas de segurança, (ali perto assassinaram um pai de família com 80 tiros, confundido com um assaltante).
A questão é que quem primeiro levantou a lebre foi o bispo prefeito, ele como aliado de primeira hora da famiglia miliciana devem estar de olho na grilagem das terras do entorno do Camboatá para promover a mesma razia que fizeram na zona oeste.
Não é de hoje  que o bispo prefeito vem tentando trazer eventos ligados ao automobilismo para a cidade e com isso ter a desculpa pra gastar dinheiro a rodo a fundo perdido e trazer junto uma falsa valorização de regiões da cidade, a exemplo com o que aconteceu com os grandes eventos, o que supervalorizou o subúrbio em torno do Engenhão e do Parque Olímpico e onde hoje há milhares de imóveis encalhados.
Essa história é apenas mais um capítulo num enredo que mistura, especulação imobiliária, peculato, esbulho, prevaricação, tudo patrocinado pelo seu, meu, nosso dinheiro, leia-se impostos.
Vamos ver o que eles vão inventar amanhã.
Nos vemos na pista.


Para maiores informações:
https://www.grandepremio.com.br/f1/noticias/presidente-assina-termo-de-compromisso-ignora-acordo-atual-de-sao-paulo-e-diz-que-f1-volta-ao-rio-em-2020