5/24/2021

André Ribeiro, o Rei de Jacarepaguá

Foi um dia ensolarado, quente, como todos os dias de março costumam ser, às vezes encerrados com uma chuva torrencial, uma temeridade para o que queriam fazer, uma jogada de mestre do prefeito Cesar Maia: trazer a então recém-descoberta (pelos brasileiros, claro) Formula Indy, a IndyCar Word Series, que estreava no país num circuito de formato inusitado, um trapezóide-oval, onde as tomadas de curvas mais agudas exigiam uma freada forte e troca de marchas, um desafio para os pilotos, além do sol e calor inimagináveis para aqueles norte-americanos acostumados às temperaturas bem mais brandas do hemisfério norte.

Naquela época eu já gostava muito de automobilismo, trabalhava numa financeira, mas nem de longe imaginava ir assistir à corrida, ingressos com preço salgado. Na época eu nem carro tinha pra ir lá longe no autódromo, um dia meu pai me liga e pergunta se eu queria ir ver a corrida, depositou o dinheiro na minha conta e mandou comprar os ingressos.

Setor norte, lá junto da saída pra grande reta, longe dos boxes, é que os melhores já estavam esgotados e eram bem mais caros nas mãos dos cambistas, papai não se importou e tocamos pra lá no sábado, bem cedo pra assistir aos treinos, dormi na casa dele pra domingo ir pra corrida.

Jacarepaguá em dias de grandes eventos era mais complicado de ir do que normalmente, se naquela época ir assistir uma Copa Shell era só deixar o carro estacionado do lado de fora, para esse evento foi feito um esquema de estacionamento no Riocentro, que para quem conhece é cerca de 1 km do autódromo.

Deixamos o carro naquele estacionamento monstruoso do centro de convenções e fomos andando pela lateral da Abelardo Bueno, fechada para veículos particulares, mas com intenso movimento de carros credenciados, caminhões, ônibus levando o pessoal vip, pois os boxes normais viraram uma imensa área de convivência e em frente à reta principal foram construídos os boxes estilo Indianápolis, com uma pequena mureta e as torres dos chefes de equipe.

No caminho, vários vendedores ambulantes, de camisas, chapéus, toalhas, chaveiros, que jocosamente meu pai chamava de toureiros, porque eles ficavam abanando seus produtos na frente dos passantes.

Quando chegamos ao portão de acesso, já ouvíamos os carros passando na pista. O uivo dos motores passando pela reta era impressionante, para quem tinha estado uma década antes assistindo a F1, era diferente, os motores turbos tinham uma assinatura sonora singular, como também o cheiro de etanol, sutil, que impregnava o ar.

Lá dentro, a balbúrdia. A organização do evento tinha que providenciar rádios para que os espectadores acompanhassem a corrida com a narração da rádio oficial da prova, foi um fiasco, eram uns radinhos chineses, coloridos, emborrachados, tinha um deles comigo até uns anos atrás e acabei jogando fora como sucata, uma pena.

Os autofalantes das arquibancadas alternavam entre a narração da prova e o locutor local, ouvíamos mal e mal alguma coisa, mas dava pra entender o que estava acontecendo, como tínhamos estado no treino de sábado, sabíamos que André Ribeiro largaria na segunda fila, ao lado de Greg Moore, que era casca grossa, podia dar problema.

Ficamos ali, torrando no sol, que naquele dia de fim de verão estava até agradável, aguardando a largada, naquele ponto da arquibancada estava cheio, mas não a ponto de ficar insuportável.

Vieram os carros, duas voltas de apresentação, havia uma coisa: era praticamente impossível vê-los passando na sua frente, ou você via eles vindo ou eles se afastando, a velocidade deles era altíssima, e isso contando que eles estavam saindo da curva 4, que era a mais "lenta" do circuito.

Não lembro muito dos detalhes da prova, mas lembro vivamente quando eles entraram na reta e lá na frente o safety car abriu para o boxes, e, simultaneamente, os 27 carros alinhados dois a dois, aceleraram num estrondo abafado e agudo, envolvido numa nuvem de etanol cuspida dos motores que deixou o ar quase irrespirável onde estávamos, isso se repetiu na volta seguinte, e na outra, até que os carros começaram a se desgarrar um dos outros, mas o cheiro persistia, impregnado nas nossas roupas, parecia que se alguém acendesse um fósforo o ar se incendiaria, então formou-se uma fila onde aqui a li se viam disputas de posição, muitas na chegada da 4, um ponto de frenagem delicado, vindo da 3, praticamente uma "reta torta". 

De onde estávamos conseguíamos ver até o fim da reta, meio indistinguível por conta da névoa de calor que emanava do solo, mas víamos claramente quando entravam na 1 por conta do relevê, a dois ficava encoberta pela torre e pelos boxes, mas conseguíamos ver a aproximação da 4 pra 3, que era sempre emocionante porque as ultrapassagens se davam praticamente embaixo de nossos pés.

Na volta 11 (chequei na internet, lembro do acidente mas não lembrava a volta), um carro bate forte na saída da 4, uma pancada seca, um ruído alto, vieram os carros de socorro, umas picapes GM amarelas que anos depois seriam o pivô da crise que acabaria com a gestão da PPE, mas isso é outra história.

A corrida prosseguiu, calor, desci algumas vezes para comprar água para nós dois, papai não arredou pé do lugar onde estávamos e me atualizava cada vez que voltava do périplo de descer e subir as arquibancadas.

Perto do final, uma bandeira amarela juntou o pelotão, lá estava ele, o carro do brasileiro, com sua sua pintura, amarela/preta/vermelha, atrás duas Penske/Malboro, os carros mais poderosos da categoria, eu não sabia na época, mas a Tasman, equipe do André Ribeiro, era pequena, mas mesmo com aquele carro sem tantos recursos tinha conseguido bons resultados no ano anterior. A ameaça dos Penske era real, mas ver um brasileiro ali, liderando a corrida depois de ver Gil de Ferran e Emerson Fittipaldi afundarem na classificação por problemas nos carros, já estava bom demais.

Relargada, o cheiro do etanol nem incomodava mais, os carros passam colados na primeira volta, mas pouco a pouco o carro do brasileiro se afasta e termina a prova com uma confortável vantagem de mais de 2 segundos, o que para a categoria equivalia a um binóculo, além de se tratar de ter derrotado a equipe mais poderosa do grid.

A volta do vencedor foi indescritível, para onde se olhava era um mar de braços acenando camisas, bandeiras, bonés, assistíamos à história ser escrita na nossa frente, um brasileiro ganhando a primeira corrida em terras brasileiras prometia um futuro promissor para a categoria e havia até quem imaginava  mesmo uma mudança de hábito na preferência do brasileiro pelo esporte a motor, órfãos que estávamos desde a morte de Ayrton Senna em maio de 1994.

André ainda teria uma carreira na Indy, correu pela Penske, mas resolveu parar ainda jovem, com 32 anos, em 1998, e foi cuidar da vida, administrando uma rede de concessionárias pelo país e ainda ajudou a promover categorias como a F-Renault e F-Clio.

Em 2005, quando essas categorias passaram pelo circuito de Jacarepaguá, já seriamente ameaçado pelo Pan 2007, estive no autódromo, já representando o blog, cobrindo o evento, assisti à homenagem que fizeram a ele, levando o troféu e o carro.

À esquerda na foto, o pequenino André, me impressionou muito a estatura dele, parecia uma criança.
O carro com que ele venceu a corrida


Na época não lembro se cheguei a falar com ele, havia muita pressão política, muita gente tinha medo que num ato espontâneo o piloto falasse algo em defesa do autódromo, mas pelo menos pude tirar as fotos bem de perto,  tirei uma com ele mas a minha valente kodakinha digital falhou.

Mas voltando aquela corrida de 96, lembro que voltando para o estacionamento, meu pai exultante de ser "pé quente" e assistido à vitória de um brasileiro, viu um daqueles ambulantes "toureiros" fazendo uma queima de estoque de camisas e comprou duas, uma pra mim e outra pra ele, camisa que guardo até hoje como recordação daquele dia.

Agora isso é passado, um passado que relembro com um sorriso no rosto, uma lembrança boa do meu pai, que se foi, aos 91 anos de idade, há duas semanas, dormindo, em casa, como ele queria. Só lamentei não ter estado ao lado dele nesses momentos finais por conta da pandemia, já que trabalho com equipamentos hospitalares, e seria última pessoa possível a estar perto de uma pessoa enferma.

A morte prematura do meu xará André me surpreendeu, principalmente porque ele vinha lutando contra um câncer muito cruel, mas pouca gente devia saber, pois foi discreto até o fim.

Sou grato a ele por ter proporcionado não só a mim e a meu pai, mas também a milhares de brasileiros que estavam naquele dia no autódromo e outros milhares que assistiram pela TV, um momento de felicidade.

Descanse em paz, pequeno grande homem, as pistas dos céus estão abertas para você.


2/25/2021

Live com Rodrigo Mattar!

Oi gente, fazia um tempo que não escrevia por aqui, com tanta coisa acontecendo, o cancelamento de Deodoro, a eleição do Paes, a possibilidade da realização da F-E no Parque Olímpico, fiquei devendo uns posts.

Mas em compensação temos a live canal do Rodrigo Mattar, em que falamos disso e mais um pouco, lembrando o passado e pensando o futuro.

Com vocês, este que vos escreve na live do canal A Mil Por Hora:

 



11/19/2020

Não em nosso nome

Hoje teve mais um capítulo da novela Camboatá, tal como a NASCAR, estamos em um Extended Time, como se fosse possível alguém ainda achar possível arrancar um parecer favorável para a aberração de se construir uma pista de corrida em cima de uma floresta.

O placar foi de 10 a 3 pela procastinação, digo, pelo reenvio do processo à empresa do consórcio para que ela explique ou corrija os pontos que foram elencados pelo INEA no parecer, que foi amplamente favorável ao NÃO DEFERIMENTO do licenciamento ambiental.

Os três votos a favor pelo indeferimento foram de muito peso: UERJ, MP e CREA, os três foram unânimes em declarar impossível, diante do que foi colocado no relatório de mais de 190 páginas, a construção do autódromo sobre a floresta do Camboatá.

A verdade é que quatro conselheiros foram trocados para esta reunião, e o próprio presidente do INEA se declarou incompetente para julgar, já que estava no cargo há apenas um mês. Mas duvido que esse processo, já amplamente divulgado pela imprensa, não seja do conhecimento de quem está lá dentro, principalmente pelas implicações políticas.

Essa história se arrasta há dois anos, desde que o patrocinador da campanha eleitoral do atual prefeito levou o representante do consórcio a Brasília, com o aval da prefeitura para garimpar um eventual apoio à proposta que tinha sido varrida para debaixo do tapete depois dos Jogos Olímpicos pelo então prefeito Eduardo Paes.

De lá pra cá ela recebeu o apadrinhamento de várias pessoas, até mesmo do presidente da Liberty Media, mas desde que o calhamaço de páginas do parecer do INEA aterrissou na mesa do Ministério Público, ficou claro que a menos que se fizesse muita pressão política, o autódromo em Deodoro poderia ser considerado morto e enterrado.

O representante do consórcio conseguiu com seu "jus esperneandi" prorrogar por mais algum tempo a esperança de destruir a floresta, mas a votação dos conselheiros condicionou o reenvio dos documentos ao consórcio à apresentação e avaliação de outras áreas. Nenhum deles desconsiderou o parecer e todos concordaram com o INEA que a construção do autódromo no Camboatá seria um crime ambiental. Logo, a vitória do consórcio foi uma vitória de Pirro, pois além de gastar mais dinheiro em um contra-parecer inútil, terá que levar seu circo para outro local, fora da floresta.

Já do ponto de vista do interesse comercial e do esporte, o autódromo de Deodoro  tornou-se inviável, visto que a empresa do consórcio, além de falhar em deter os direitos de transmissão da F1 por não apresentar garantias financeiras, ainda conseguiu perder a MotoGP, ou seja, lá fora ninguém vai querer fazer negócios com essa pessoas ou prepostos dele,

O que resta? Oferecer o autódromo para eventos nacionais? Pode ser, mas quem vai pagar para usar uma estrutura megalômana projetada para públicos enormes de eventos internacionais?

O eixo Rio-MG possui hoje três autódromos, na época da demolição de Jacarepaguá só tínhamos Interlagos (em SP) como opção, hoje temos Curvelo e Potenza (Juiz de Fora), além de uma pista particular em Campos dos Goitacazes que é alugada para Track Days. Temos o VeloCittà em Mogi Guaçu, este de propriedade da Mitsubishi Motors do Brasil, mas que também recebe eventos particulares, o de Piracicaba, que recebe eventos regionais, e a Fazenda Capuava, particular, mas que abriga eventos de track day regularmente. Ou seja, estamos bem atendidos de pistas para todos os gostos e gastos, sendo que o diferencial do Rio seria pela sua atratividade turística, que convenhamos, Deodoro não possui nenhuma.

O país possui alguns autódromos abandonados, como Brasília, que passa pelo mesmo processo de sucateamento que Jacarepaguá sofreu antes de ser demolido, com o agravante que não existe motivo para tal, já que sequer existe demanda imobiliária sobre ele, porque não se pode mudar o projeto urbanístico do Plano Piloto. Temos Curitiba, que está numa lenga-lenga de ser ou não destruído para, também, fins imobiliários. Pelo tempo e esforço despendidos pelo consórcio, e pelo seu apelo de deixar um "legado", poderiam ter recebido alguma atenção já que são duas pistas com homologação internacional para grandes eventos. Já que o objetivo é o esporte a motor e não especulação imobiliária, creio.

Oras, se a demanda de praças para o esporte a motor é tão pequena que "sobram" pistas abandonadas pelo país, por que se construir mais uma, ainda mais em nome de eventos que não virão mais, por quê? 

Não em nome do esporte a motor, não carregaremos esse fardo de sermos responsáveis pela destruição de uma floresta, está na hora de os pilotos brasileiros se posicionarem claramente a respeito disso. Se antes tinham receio de contrariar fortes apelos econômicos devido ao medo do país não receber mais a F1, isso acabou, a Liberty assinou com SP mais cinco anos de contrato para realizar a corrida, a Fox/Disney assinou por mais seis anos de transmissão da MotoGP para o Brasil, se temiam perder espaço no cenário internacional ele acabou, o que restou agora é barrar essa obra insana de construir um autódromo sobre a floresta do Camboatá em nome de algo que não nos representa.

Não existe legado olímpico, ele é hoje apenas um monte de estruturas enferrujadas à beira de uma lagoa, esperando a demolição definitiva para dar lugar a um pardieiro de paliteiros caros, e o autódromo, uma vez demolido, dificilmente voltará para onde era.

A menos que, daqui a dez dias, o novo prefeito seja o algoz de Jacarepaguá. Ele já se declarou contra o autódromo em Deodoro, que cumpra sua promessa, ele tem em seu staff uma pessoa com quem eu dialoguei várias vezes sobre uma alternativa para a construção de uma nova pista, se eles tiverem um mínimo de bom senso podem retomar essa ideia, já que é a construção de um autódromo dentro da cidade do Rio de Janeiro, basta querer, se quiserem estarei disposto a  ajudar, como já fiz antes, mas sem colocar em risco a pouca diversidade ambiental que resta na nossa cidade.

Autódromo no Rio sim, em Deodoro NÃO!


11/11/2020

Fim da novela (por enquanto)

Bom, faz cinco meses que escrevi pela última vez aqui, e tinha prometido que só voltaria a falar do assunto quando houvesse algo realmente relevante, e esse dia chegou

Durante esses seis meses assistimos a várias idas e vindas, participei de uma live que teve convidados o autor do SOS Floresta do Camboatá e um amigo de longa data que não via há algum tempo, e ele revelou ser amigo pessoal do atual presidente da república (no minúsculo mesmo).

Isso explicava a insistência com que vários atores políticos, primeiro o prefeito e depois o governador afastado, se empenharam em fazer a proposta (absurda) do autódromo ir para a frente, além dos interesses obscuros, estava claro que o lugar era totalmente inapropriado, bem como o momento econômico e social que estamos passando.

Isso foi lá começo do atual governo (estadual e federal), dois anos atormentando nossas cabeças com uma proposta descabida diante do cenário que estamos vivendo.

Aos poucos o véu foi se descortinando, primeiro com o Rubem Berta com uma matéria explosiva contando os descaminhos do dinheiro da empresa empreendedora do projeto.

Aos poucos as informações vinham chegando e cada vez mais nebulosas, no início de 2020 a Globo, através do seu braço de canal pago, SPORTV, anunciava o fim da cobertura da motovelocidade no canal, o que pegou todos de surpresa.

Surpresa que não foi maior quando a RioMotorSport se apresentou como detentora dos direitos de transmissão e apresentou a rede FoxSports como emissora oficial da categoria para o Brasil.

A FoxSports rapidamente se adequou, aumentando sua equipe, e com muita competência tocou o barco, transmitindo as corridas, mas alguma coisa aconteceu no meio do caminho que quase pôs tudo a perder.

Primeiro, a Fox passa por um processo de transição delicado, a Disney comprou a empresa nos EUA, e lógico, todas as suas afiliadas, e ela já possui um canal de esportes, a ESPN, pela lei ela só poderia ter um canal e vender o outro, mas mesmo assim, com autorização do CADE, continua operando as duas empresas no país.

A Disney repassou o valor das cotas de transmissão à detentora dos direitos de transmissão para que ela  pagasse à DORNA, mas isso não foi feito, colocando em risco a continuidade da transmissão da temporada com um forte prejuízo à imagem emissora, o que obrigou a Disney a assinar um contrato de seis anos de exclusividade de transmissão para "cobrir" o prejuízo causado pelo calote.

Na mesma ocasião estava em jogo a audiência virtual que tinha sido desmarcada duas vezes, por conta da pandemia, e que foi literalmente empurrada para ser feita às pressas depois de um decreto do governador (agora afastado) Witzel. 

A audiência durou horas, as prerrogativas apresentadas pelo consórcio foram vagas e imprecisas, milhares de empregos, milhões de dólares, milhões de turistas, pareciam que estavam vendendo um bonde pra mineiro, mas a coisa não é bem assim.

Um dos promotores, na sua argumentação, falou que, primeiro, a empresa não era dona do terreno, quem era o proprietário de fato e de direito era o EB, e que só haveria o repasse à União quando fossem transferidos cerca de 300 milhões de reais (que era a quantia que tinha sido estipulada lá atrás como a verba para a construção do autódromo), e isso só ocorreria se todos os documentos fossem aprovados e dentro do prazo legal, o que estava muito longe de ser verdade, como se anunciava.

Naquela mesma semana eu conversei com o Roberto Kaz, jornalista da Piauí, que tinha participado com outro jornalista numa live que o Flávio Gomes, do site Grande Prêmio, realizou ás vésperas da audiência, e ele me passou informações mais graves ainda sobre a situação do dono da Rio Motor Sports. 

Com tudo isso, fiquei de certa forma "tranquilo" em relação ao desfecho dessa novela, poderiam até mesmo mover mundos e fundos para conseguir construir o autódromo, mas será que o preço valeria a pena, e o pior, daria para ressarcir todos os envolvidos na empreitada?

O golpe final veio logo depois com o anúncio que a RioMotorSports estava com os direitos de transmissão e que estava negociando uma nova emissora.

Bom, pensei, agora era certo, com a F1 as portas e as pernas se abririam para o que eles quisessem, afinal brasileiro "adora" F1 (não obstante os cada vez mais baixos índices de audiência da TV aberta), e com o governo federal diretamente interessado em uma agenda positiva, fiquei apreensivo.

Mas no mundo dos negócios o que manda o é o dinheiro, não adianta ter boa aparência ou amigos influentes, o que faz a roda girar é o dinheiro no caixa, e hoje a roda girou, não para quem se imaginava.

A Liberty Media aceitou a proposta da RioMotorSports por um contrato de cinco anos, mas tal como na MotoGP, a empresa iria apenas repassar os direitos a quem fosse realmente transmitir o evento, pegando na transação sua parte como intermediária, só que aqui no Brasil só tem uma emissora capaz de fazer esse trabalho, e essa empresa se chama Globo, tanto é que, depois do CEO da Liberty Media, Chase Carey ter feito até lobby pelo autódromo de Deodoro com direito a uma carta endereçada ao governador interino Claudio Castro, voltou atrás e procurou a SP Turis, administradora de Interlagos e pediu que chamassem a Globo para negociar.

Ao fim e ao cabo a novela F1 no Rio de Janeiro acaba aqui, mesmo que a Globo assine, ou não assine, ou a Liberty faça um pool de emissoras ou transmita tudo pelo seu canal F1 Channel, o importante que o lobby pelo autódromo em Deodoro encerrou definitivamente com essa situação.

Se a RioMotorSports vai continuar existindo eu não sei, se continuar, acho muito difícil que ainda tenham como objetivo construir algo no Camboatá, o destino daquele lugar é virar um centro de pesquisas de flora e fauna e, talvez, um parque ecológico.

Quanto a um autódromo na cidade do Rio de Janeiro eu a cada dia acho mais difícil, além do custo de se construir uma pista, o metro quadrado na cidade encareceu absurdamente por conta da especulação imobiliária em torno dos grandes eventos, o Parque Olímpico segue abandonado, sem dono, mas vários "donos" se agarram a ele como uma tábua de salvação, ou melhor, garantia de receber um dinheiro o qual não merecem ou não fizeram por onde merecer, enfim, quem tem que cuidar disso é o MP, o que aconteceu em Jacarepaguá, que, hoje, faz oito anos, foi um crime contra o erário público, e que tentam a todo custo esconder, fazendo pirotecnias midiáticas e contábeis, mas uma hora a conta vai chegar.

A opção viável seria reconstruir a pista dentro do terreno do Parque Olímpico, ao estilo Sochi, para, ao menos, receber categorias Master como a Stock Car ou a Endurance Brasil, mas quem aceitaria o barulho dos carros? Mesmo se tomando as medidas necessárias para reduzir os decibéis dos motores. Claro que é hipocrisia, porque eles aturam o Rock In Rio durante noites inteiras e não reclamam e nem impedem que aconteça.

Agora, uma pista no estado pode ser que aconteça, surgiu essa semana uma proposta para a construção de um autódromo em Cabo Frio,  o que me parece bem realista, desde que os empreendedores não venham com essa história de F1, isso é igual pote ouro no fim do arco-íris, se realmente fecharem com SP, a F1 só sai de lá na próxima década.

Se a coisa for séria e bem fundamentada, pode ser uma opção com o autódromo Potenza em Lima Duarte, para se formar um complexo de autódromos no sudeste, somando com o Curvelo e Velocità, para receber provas regionais e nacionais, deixando para Interlagos a honra de sediar a F1.

De resto vamos aguardar o próximo capítulo dessa saga, por hora poderemos descansar quanto ao futuro da Floresta do Camboatá, acredito que agora eles irão desistir dessa empreitada e partir para algo mais viável e menos polêmico.

8/05/2020

Camboatá resiste

Mais uma vez torno a postar, por conta dos últimos acontecimentos. No final do dia 03 de agosto de 2020, a Juíza Roseli Nalin, titular da 15ª Vara de Fazenda Pública do RJ suspendeu a audiência pública virtual convocada pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente porque, pasmem, o conselho foi criado de forma irregular.

Para entender melhor essa história vamos dissecar passo a passo: primeiro o EIA RIMA estava cheio de erros e foi feito pela própria empresa que postula a construção do autódromo. Essa empresa, além de ser a única postulante e ganhadora do processo de licitação(?), não possui capital para garantir a obra nem conhecimento prévio na construção e gestão desse tipo de equipamento, depois disso ainda temos a questão que dentro do projeto está prevista a construção de empreendimentos imobiliários, derrubando a floresta que está em cima de um terreno minado e que pertence a União - nunca foi dito ou prometido que o terreno seria dado para o empreendimento, mas sim ser cedido para a construção da pista, se há aí uma má interpretação de texto, seja ela intencional ou não, tem que ser explicada - e pra completar esse conselho, criado especificamente para ratificar essa história toda.

Outra coisa, a prefeitura trata como irrelevante uma floresta que existe naquele local antes do paiol do EB ser construído. Camboatá se refere a uma antiga fazenda que existia na região e que foi encampada pela União, seja a título de pagamento de dívida ou simples arresto para a formação do complexo que se tornaria a região quando da criação da Vila Militar no início do Século XX, e que fará (aí é a parte da piada sem graça dessa história), compensação da retirada das árvores para a construção do empreendimento.

A prefeitura, aliás, as três esferas de governo, não estão nem aí para nenhum tipo de mitigação ou compensação de espécie nenhuma de lugar nenhum em tempo nenhum, um governo que patrocina no espaço de um ano um dos maiores desmatamentos da floresta amazônica, libera toda a sorte de agrotóxicos possíveis para o agronegócio, não está minimamente preocupado com 200 hectares de mata atlântica dentro de uma cidade de milhões de habitantes, para eles é apenas mais um espaço para especulação imobiliária selvagem e ilegal que vem sendo praticada desde que se abriu o túnel do Joá descortinando as vargens de Jacarepaguá à sanha dos especuladores no início dos anos 70.

Aliás, temos que considerar também a questão do dinheiro público, no início prometeram tudo, além do terreno tinha também os propalados 350 milhões destinados para o autódromo que viraram fumaça junto com o próprio Ministério dos Esportes. Depois foi prometido que não haveria participação do governo na empreitada, já começa errado o governo dando terreno pra construção da pista, se é um particular que quer construir o autódromo, que compre o terreno e construa, não fique mamando na teta do governo esperando de boca aberta aquilo que não lhe é de direito.

Conheço muita gente, mas muita gente mesmo, que comprou essa ideia, seja pelos mais variados motivos, que colocou todas as suas fichas nisso, que quer essa pista pra livrar a cara por ter patrocinado a destruição de Jacarepaguá, aquele tipo de gente que quer no final de tudo estar certo em vez de ter razão.

Para esses só lamento, mesmo que esse autódromo, patrocinado pelo governo mas escamoteado por uma iniciativa privada de fachada, superfaturado, imoral (economicamente falando, diante da situação que não só o Brasil, mas o mundo passa hoje) e, principalmente, insustentável, seja construído, sua história suja estará a vista de todos, e mesmo que a história oficial apague os rastros, sempre restará alguém pra gritar que o rei está nu.

Esse é apenas mais um capítulo dessa história caótica, que mais parece alguém tentando roubar a prataria da cozinha do Titanic enquanto o navio afunda, contando que vai encontrar um bote disponível ou sobreviver à agua gelada com vinte quilos de talhares nos bolsos.

Ao movimento SOS Floresta do Camboatá só posso dar meus parabéns por estar conseguindo resistir a esse massacre que vem sendo feito desde 2010, quando anunciaram que iriam construir o autódromo ali, eu sempre fui contra, sempre coloquei a perspectiva que se deveria procurar outro lugar, eu mesmo cheguei a ir a vários lugares dentro do município para estudar espaços onde poderia se construir uma nova pista, mas a teimosia obstinada (ou seria ganância desenfreada?) de algumas pessoas persiste nessa ideia fixa.

A prefeitura alega que tem grandes planos, que vai fazer grandes projetos de recuperação, conversa, não consegue nem tapar buraco de rua, não vai fazer, sabem por quê? Não tem gente competente lá dentro pra isso, se quisessem em 2015 teríamos um novo autódromo, fora do Camboatá, no Gericinó, tem espaço lá pra isso, não é cláusula pétrea construir dentro do Camboatá, é apenas "um terreno" e não "o terreno", é uma questão de boa vontade, mas no momento o que vemos é má fé e interesses ocultos nessa história.

Quanto ao futuro do esporte a motor no Rio ninguém sabe, a Globo, através do programa Bom Dia RJ do dia 04 de agosto foi contundente, na voz do seu apresentador, Flávio Fachel, em apresentar a opção de se fazer uma corrida na enseada de Botafogo, assunto que já foi tratado aqui no blog, e que tem ferrenha oposição dos moradores do bairro, além do veto do IPHAN sobre a obra da arquiteta Lotta Soares e do paisagismo de Burle Marx, qualquer evento que se faça ali pode alterar as características arquitetônicas e paisagísticas do local, o maior parque urbano do mundo, do qual sinto saudades de caminhar nas tardes de sol nesses tempos de quarentena pandêmica.

Sempre há a opção de voltar à casa, o parque Olímpico, abandonado a própria sorte, refém de um grupo de empreiteiras denominado Rio Mais, cujo plano é transformar a restinga de Itapeba num paliteiro de prédios, inviável porque no rastro dos grandes eventos houve uma explosão de empreendimentos imobiliários impulsionados pelo crédito fácil dado pelo governo federal até 2016, de lá pra cá com  a crise financeira, o mercado imobiliário empacou, não se tem ao certo o número de imóveis vazios na cidade, mas basta dar uma volta para ver dezenas de placas de "vendo" e "alugo"  para perceber que oferta há, e muita, o que descartaria qualquer demanda para esses novos prédios num médio (eu diria até longo) prazo.

Não seria difícil construir um traçado nem que fosse para a F-E, dentro do Parque Olímpico, já temos precedentes como a pista do Canadá, construída dentro do complexo olímpico de Montreal, um parque que várias vezes por ano se transforma num autódromo, seja para eventos nacionais ou internacionais, ou mesmo o complexo de Sochi, na Rússia, para usar um exemplo mais recente. Como está hoje, o Parque Olímpico é apenas um monumento ao maior esporte nacional: o desperdício de dinheiro público.

Se houvesse interesse genuíno era só entrar em contato com as construtoras para retornar o autódromo para o Parque Olimpico, só que ele não existe. Aliás é estranho pedir que cedessem os direitos de uso do terreno, por algo que nem eles têm já que não cumpriram sua parte no contrato, ou seja, não usam e não abrem mão do direto de não usar, ficam sentados em cima, esperando dias melhores no horizonte, ou que simplesmente esqueçam o que aconteceu ali.

O cenário nacional do automobilismo está se virando como pode, tivemos uma bela prova de Endurance em Interlagos, e uma prova de Stock-Car (com novos carros, algo sempre bom) em Goiânia, mas ninguém sabe por quanto tempo poderá se manter esse estado de coisas, o automobilismo nacional sempre careceu de gente nos autódromos, a menos que se fizesse maciça divulgação e distribuição de brindes, os eventos regionais então, sempre foram quase que eventos secretos, perguntem pros paulistas a tristeza de ver as arquibancadas vazias em finais de semana com vários eventos acontecendo. Se nada for feito, daqui a pouco a Stock só vai passar no Youtube, como já acontece com a Endurance e o Brasileiro de Marcas, pelo menos populariza, mas é muito menos que um canhão que é uma TV aberta, ainda mais considerando nossa crônica falta de infraestrutura, em que fora dos grandes centros não se consegue uma internet decente nem pra assistir um streaming a 480p.

No cenário mundial a coisa piora mais ainda, Interlagos este ano não recebe a F1, a menos que haja uma reviravolta muito grande, mas pelo que parece está saindo para não voltar, além de sermos o segundo país no mundo em número de mortes pela Covid-19 ainda por cima a Liberty Media vinha discutindo a questão dos valores a serem pagos para a realização do GP, do qual não abria mão das taxas que ela cobra dos outros países, que por conta do um acordo que remonta aos tempos de Bernie Ecclestone, não eram pagos, tudo isso concorre para tirar o país do calendário da categoria.

Se serve de consolo, EUA, México e Canadá também tiveram seus eventos cancelados, a F1 se torna cada vez mais europeia, também com o cancelamentos dos eventos na Ásia, isso pode ser bom, porque trará novas pistas para o calendário, como a de Portimão que me parece muito promissora, além de Nurburgring (circuito curto, claro), Imola e Mugello, pode até ser que Zandvoort reapareça no final do ano, vai depender de como as coisas vão andar até lá.

Mas, voltando ao tema deste post, esse foi mais um capítulo da saga do novo autódromo fantasma, que parece cada dia mais longe e incerto, nesses oito anos desde a demolição da pista já surgiram as pistas de Campos, Juiz de Fora e Curvelo, todas privadas e acessíveis tanto para quem mora na capital (do Rio, claro), como no interior, se houvesse um pouco de boa vontade dos órgãos competentes já era hora de voltar com o Torneio Rio-Minas ou com uma Copa Sudeste e tirar a poeira dos carros e dos macacões de corrida.

Não podemos viver de passado, tenho imensas saudades do antigo autódromo, mas as forças que o criaram não mais se repetirão, os grandes eventos esperados para essa futura praça esportiva também não vão mais acontecer, pelo menos num médio prazo, o que resta é encarar a realidade antes que nem essa seja possível, precisamos pensar com modéstia e pé no chão, o tempo dos grandes arroubos acabou, o Brasil hoje é um pária internacional, ninguém vai querer fazer negócios aqui ou trazer eventos enquanto esse governo estiver no poder, e essa confluência de forças para a construção do novo autódromo vem direto dessa gente, e o que menos eles estão interessados é no esporte, pra eles é apenas fachada para interesses escusos, basta ver os esforços de tentar dar um verniz de legalidade nessa operação disfarçada de empreendimento privado.

É isso meus amigos, espero não ter que voltar a falar nesse assunto de novo, que a próxima postagem seja pelo sepultamento definitivo desse projeto ou então pela construção da nova pista fora da floresta, no Gericinó ou em outro local onde não se tenha um risco de um desastre ecológico como o que pode se consumar com a derrubada da floresta, sem falar do risco de tudo ir pelos ares. Caso as pessoas não saibam o que é uma explosão em área urbana, basta ver o que aconteceu ontem em Beirute pra ter uma ideía do que pode acontecer quando um bate-estaca se encontrar com uma bomba de 200 quilos enterrada no solo.




3/09/2020

Ayrton "Lolô" Cornelsen 1922 - 2020

Recebi a notícia hoje, mas ele faleceu a cerca de 4 dias em sua cidade natal, Curitiba, por falência múltipla de órgãos.
"Pai" do primeiro traçado de Jacarepaguá, deu um depoimento contando para o blog como foi a construção da primeira pista, da quantidade de turfa que teve que retirar para colocar a base que receberia o asfalto, de como ele traçou as curvas e relevês para tornar o traçado veloz e técnico, bem ao gosto da época, de carros com baixa potencia e pneus finos, em que a habilidade do piloto deveria sobressair na capacidade de manter e controlar a velocidade nas curvas.
Experiente construtor de estradas, entre elas a lindíssima Estrada da Graciosa, por onde já tive o prazer de passar algumas vezes, Ayrton deixa um legado não só de obras como de idéias, como a caixa de brita, criada no autódromo de Luanda, que revolucionou a segurança das pistas, que até então usavam perigosos postes e telas para segurar os carros desgovernados que viessem a sair do traçado.
Quando da demolição do autódromo de Jacarepaguá, não consegui contato com ele, mas soube que estava desgostoso com os acontecimentos, afinal não era apenas uma obra sua, mas um patrimônio público que desaparecia.
Foi-se um grande homem, pouco conhecido do grande público, mas muito estimado pelos os que o conheceram.
Descanse em paz, quem sabe lá um dia olhando para o céu não o vejamos projetando autódromos nas nuvens.

5/09/2019

De novo a farsa de Deodoro.

É, volta e meia a história retorna, então como fiquei oito anos com esse blog no ar defendendo um autódromo que só existe hoje nos sonhos e nos simuladores de corrida, sou obrigado, de novo, a fazer um resumão do que aconteceu, para entendermos em que estamos metidos hoje

O autódromo original (Jacarepaguá) foi construído no antigo terreno da FAB, tanto é que do lado dele até hoje existe o hotel de trânsito de oficiais, na época o terreno era usado para guarda de máquinas de terraplanagem da uma empresa que estava fazendo a urbanização do bairro do Camorim e imediações (ali nunca foi Barra da Tijuca, só nos panfletos das construtoras).
Nos anos 50 as corridas no Rio eram realizadas num arremedo de circuito na Barra junto ao canal, até hoje dá pra passar na curva inclinada que existe no contorno da Praça do Ó.
Em 1965, quando foi realizada a prova comemorativa do quarto centenário da cidade, uma série de acidentes mais ou menos graves acenderam a ideia de se construir uma pista fechada para realizar as corridas.
A Caledonia Empreendimentos estava de posse do terreno que tinha sido desmembrado da antiga fazenda de suprimentos da FAB, lá eles construiram uma pista e propuseram um projeto megalomaníaco de transformar tudo num clube que englobaria a pista, uma marina e um local para evento.
Claro que nunca saiu do papel, apesar de centenas de pessoas terem comprado títulos do empreendimento, o automobilismo era febre da classe média/alta da época.
No final dos anos 60, percebendo que a coisa não iria adiante, eles decidiram que iam demolir a pista (que já estava começando a ceder em alguns trechos) para construir um condomínio de casas.
Os pilotos fizeram um protesto pelas ruas da cidade, foram a programas de TV e o então governador Carlos Lacerda, prefeito do DF (ainda era naquela época), sensibilizado,  desapropriou o terreno.
A pista original funciona mais ou menos até o ano de 72, também graças a Interlagos que ficou dois anos em reforma e fez que vários eventos nacionais e até uma prova internacional de F-Ford viessem para o Rio, essa foi considerada a "época de ouro" do autódromo.
No início dos anos 70, com dois títulos do Emerson Fittipaldi na F1, o governo militar resolveu pegar o então autódromo e reformá-lo para um padrão internacional, aproveitando a onda ufanista do milagre econômico e do "país que vai pra frente".
Aí é que começam as coisas nebulosas, até aquela época o processo de desapropriação corria lentamente, o antigo DF tinha se transformado em Guanabara, a Caledonia tinha falido e se transformado em Territorial Agrícola. Antes do autódromo novo ser inaugurado em 77 ainda tivemos outra mudança em que a Guanabara foi extinta e transformada em município, perdendo assim seu status de cidade-estado, passando a ser um simples município.
Isso tudo criou uma confusão fundiária absurda, porque o ente autor da primeira ação não mais existia, e nem o antigo proprietário, e o governo militar já tinha enfiado muito dinheiro na obra, inclusive um monumental aterro hidráulico que retirou milhões de metros cúbicos de areia do fundo da lagoa para aumentar a restinga de Itapeba (nome original do lugar) em mais do dobro do tamanho.
Então, quando o autódromo foi inaugurado, ele não tinha dono nem escritura, era um direito de uso de uma massa falida cujo ressarcimento vinha sendo calculado a mais de uma década.
O imbróglio só foi resolvido nos anos 80 quando o governo do estado, detentor do processo original que herdou do estado da Guanabara, conseguiu chegar a um acordo com os advogados da massa falida, pagando o terreno com os recursos da caixa de previdência da PM e alocando o terreno no ativo do Rio Previdência como garantia e lastro financeiro.
Isso resolvia a questão fundiária mas não resolvia a questão de uso.
A cidade do Rio de Janeiro, através do seu órgão de turismo, a Riotur, entrou em guerra contra sua congênere estadual,a Turisrio, pela posse e uso do autódromo.
Foi feito um acordo no qual a Riotur, leia-se a prefeitura, garantia a permanência da F1 no Rio e em troca ela poderia gerir o autódromo.
Isso funcionou até os anos 90 quando num malfadado jantar pós corrida, o então prefeito Marcello Alencar veio pedir mais dinheiro pra realizar o evento no Rio
Naquela época, Bernie mandava muito na F1, a ponto de dizer quem podia ou não sediar uma corrida, tudo passava por ele, inclusive as taxas, e o Rio era uma das poucas cidades que não pagava valores exorbitantes, mas em contrapartida arcava com as despesas de preparar o evento conforme era solicitado pelos promotores
Bernie saiu do evento avisando que a corrida no Brasil seria a última devido a desacordo comercial, a CBA apavorada correu até São Paulo e procurou a então prefeita Luiza Erundina, na época eles tinham a pista de Interlagos original, imensa, com oito quilômetros de extensão, já bastante castigada pelo uso, já que desde de 1990 ela não recebia mais a F1, e consequentemente, reformas.
Em seis meses eles arrumaram a pista, encurtaram o traçado e conseguiram homologar junto a FIA, Bernie deu uma banana para o Rio e se mudou de mala e cuia para SP.
Com isso, sem sediar a F1, o acordo entre a prefeitura e o estado morria, a menos que se conseguisse alguma coisa, a Riotur iria perder o direito de usar o autódromo.
Aí entra a figura do Cesar Maia, sabedor do acordo costurado entre os governos, ele partiu para uma empreitada assim que assumiu a prefeitura, naquela época o estado ainda não tinha se interessado em pegar a pista de volta, mas a qualquer momento isso poderia mudar.
Ele criou um oval de milha e meia retificando algumas curvas do circuito, matando o kartódromo que existia atrás da curva Sul, fazendo uma pista para receber a F-Indy em 1994, evento que ficou quatro anos recebendo provas aqui no Rio, e por causa de uma desavença entre o prefeito e a empresa que ficou responsável por gerir o autódromo, a PPE (Paulo Júdice, Nelson Piquet, e Emerson Fittipaldi) a coisa desandou e o evento saiu do país.
O pivô da história foi que a F-Indy guardava seus carros de resgate em um dos boxes do autódromo e "pagava" um aluguel à PPE e um sujeito dentro da prefeitura quis participar do butim e foi barrado, daí saiu a fofoca.
Enfim, perdemos a F-Indy e de novo a quebra do acordo voltava a berlinda
Então o filhote do prefeito mais uns empresários espanhóis (DORNA, empresa que promovia o mundial de motovelocidade) trouxeram a categoria para o país, antes ela tinha corrido em Goiânia, cuja pista foi construída especialmente para a categoria e lembra muito Jacarepaguá em seu traçado.
A prova ficou aqui até 2003, quando houve outro desacordo comercial e a categoria foi embora, dessa vez a coisa foi desastrosa, pois barraram o inspetor de segurança da FIM (Federação Mundial de Motociclismo), o Sr. Charles Whitting (sim, aquele que morreu recentemente) que era a autoridade máxima da FIA para homologação de autódromos.
Claro que isso colocou uma mancha negra em cima da cidade, essa palhaçada era motivada principalmente pela briga entre o então prefeito Cesar Maia e o governador Antony Matheus, até porque havia mais um projeto megalomaníaco na mesa do prefeito: Os Jogos Olimpícos, mas para isso ele teria que pagar um pedágio fazendo um evento menor, no caso os Jogos Panamericanos.
Para isso ele queria o terreno do autódromo, um projeto parecido com o que foi feito para os Jogos Olímpicos, mas que ainda preservava a pista, mas incluía um estádio de futebol lá dentro.
Para evitar um desastre maior, o estado ofereceu em holocausto o terreno da Central do Brasil no Engenho de Dentro, onde eram as oficinas, só que o estado era fiel depositário, não dono, inclusive porque milhares de toneladas de material ferroviário e equipamentos pesados estavam guardados ali como lastro financeiro para pagamento de indenizações trabalhistas para os funcionários da RFFSA.
O terreno da rede ferroviária foi esbulhado para construir o estádio de futebol e os equipamentos ferroviários sumiram, por pouco a Baronesa e o acervo do museu não foram junto, mas a sanha assassina do prefeito destruiu o traçado norte do autódromo junto com o oval, restando apenas o circuito club, com pouco mais de três quilômetros.
Após o Pan, o autódromo retomou suas atividades, já com um planejamento futuro em reintegrar o oval e refazer o traçado norte, mas veio outra traulitada com o anúncio dos jogos olímpicos, aí a proposta era botar tudo abaixo e construir a pista em outro lugar.
Nós resistimos, a ideia era pelo menos termos "chave por chave" , mas em 2012 o Dudu meteu a retroescavadeira na reta principal e em menos de um mês nada mais restava do autódromo.
Aí que uma mente abençoada lembrou dos terrenos do EB em Deodoro, e aí a coisa fica mais sinistra, quem é do Rio deve lembrar que no Campinho existia o 1ºRecMec, batalhão de infantaria mecanizada, um dos mais antigos do Rio, anterior inclusive à criação da Vila Militar?
Pois é, o terreno foi vendido irregularmente pelo comandante da divisão de assuntos fundiários do EB para a região sudeste, fato que lhe rendeu a prisão e depois expulsão dos quadros da força,
mas o estrago estava feito, além de destruir uma unidade centenária, levou milhares de incautos a pagar por imóveis que nunca seriam construidos (ali não foi o único lugar vendido irregularmente).
Nesse rastro veio a ideia de "doar" o terreno do Camboatá, uma antiga unidade de que foi pelos ares em 1958, no que foi conhecido como um dos maiores desastres em unidades militares da história.
O lugar abrigava o maior paiol de munições da América Latina, com milhares de toneladas de explosivos, de bombas de 500kg a munição de revólver.
Isso tudo foi pelos ares, provocando pânico, mortes de destruição, tanto que passado o pior momento, o exército tratou de cobrir o que restou dos paióis com toneladas de terra e colocou um embargo de uso do terreno por 30 anos, o suficiente para que esquecessem o que tinha havido ali.
De fato esqueceram, tanto é que com milhares de hectares devolutos pertencentes ao EB, resolveram dar para construir a nova pista a única área que era terminantemente proibida de se construir algo em cima.
Assim, passadas três décadas, uma floresta cresceu sobre os paióis enterrados, graças aos fosfato dos explosivos, árvores enormes subiram, carregando em seus troncos balas de canhão e de revólver entranhadas em suas raízes.
Um lugar tão perigoso que só era liberada a entrada para oficiais em treinamento avançado, e havia a proibição de se fazer fogueiras no terreno.
Há cerca de cinco anos, quando começaram a falar sobre o destino do terreno uma tropa de jovens oficias estava fazendo um treinamento de sobrevivência no local e um aluno teve a brilhante ideia de fazer uma fogueira, claro que eles foram fazer um cima de uma granada enterrada que explodiu matando um soldado e ferindo vários outros.
O EB abafou o caso e disse que iria fazer uma varredura para tirar os explosivos, o que fizeram na verdade foi abrir o mapa da antiga instalação militar e retirar o que estava ainda do que restou dos paióis, o que estava espalhado no mato só foi retirado da superfície, a cerca de meio metro de profundidade.
Para se ter certeza de que não haveria mais nada ali, era pra terem retirado um camada de pelo menos cinco metros de terreno e todas as arvores, o que não foi feito, é claro, tanto pela falta de tempo, quanto pelo absurdo de caro e o perigo envolvido.
E temos o agravante, ceder o terreno é uma coisa, mas quem vai pagar a obra? Até 2014 havia uma promessa de 350 milhões de reais rubricados em nome do ministério do esporte para a construção da nova pista, esse dinheiro não só desapareceu, como também o ministério deixou de existir, o valor projetado é de quase um bilhão, sem falar que o prazo é irrealizável, ainda mais nas condições em que o país se encontra, prometeram que não haverá dinheiro público, claro que não, porque ele não existe, visto que os cortes chegaram até os militares, cuja perda será de 43%, nem preciso falar da educação e demais setores, e a plena recessão que estamos vivendo, para perceber o quanto isso é loucura da cabeça de quem só pensa em jogar pra torcida sem se preocupar com o mundo real.
A Liberty Media (dona da F1 e com participação da MotoGP) não vai botar um cent de dolar aqui, ela quer ganhar e não gastar.
Nem preciso dizer que o malfadado Parque Olímpico, hoje em ruínas, que recebe o Rock in Rio, é terra de ninguém, pois as construtoras que fizeram as obras não receberam o que foi combinado e não terminaram as obras pós-evento (que incluiam o desmonte de algumas estruturas), o velódromo foi incendiado, o Maria Lenk tem problemas estruturais sérios ( aquilo é um aterro, lembrando), os outros equipamentos não passam de galpões estilosos.
Eu venho defendendo há muito tempo que o autódromo retorne para lá, mas tem um grupo de obstinados teimosos que vêm carregando a bandeira de construir a pista em Deodoro sem se ater a realidade dos fatos de que é uma obra cara, cujos problemas infraestruturais serão gravíssimos (há nascentes lá dentro), problemas de segurança, (ali perto assassinaram um pai de família com 80 tiros, confundido com um assaltante).
A questão é que quem primeiro levantou a lebre foi o bispo prefeito, ele como aliado de primeira hora da famiglia miliciana devem estar de olho na grilagem das terras do entorno do Camboatá para promover a mesma razia que fizeram na zona oeste.
Não é de hoje  que o bispo prefeito vem tentando trazer eventos ligados ao automobilismo para a cidade e com isso ter a desculpa pra gastar dinheiro a rodo a fundo perdido e trazer junto uma falsa valorização de regiões da cidade, a exemplo com o que aconteceu com os grandes eventos, o que supervalorizou o subúrbio em torno do Engenhão e do Parque Olímpico e onde hoje há milhares de imóveis encalhados.
Essa história é apenas mais um capítulo num enredo que mistura, especulação imobiliária, peculato, esbulho, prevaricação, tudo patrocinado pelo seu, meu, nosso dinheiro, leia-se impostos.
Vamos ver o que eles vão inventar amanhã.
Nos vemos na pista.


Para maiores informações:
https://www.grandepremio.com.br/f1/noticias/presidente-assina-termo-de-compromisso-ignora-acordo-atual-de-sao-paulo-e-diz-que-f1-volta-ao-rio-em-2020

12/31/2018

Mais um ano...

Olá amigos, como vem sido nos últimos anos as postagens do blog estão de raro em raro, menos quando tem algum assunto relevante, e 2018 foi fraco nesse aspecto.

Aos que acompanham a saga da substituição do autódromo desde que Jacarepaguá foi demolido sabem que esse ano tivemos uma audiência para tentativa de aprovação da construção da nova pista em Deodoro, eu, desde o início fui e sou contra.

Primeiro porque o lugar é uma área de preservação, e por mais que este governo que assume dia primeiro de janeiro diga que vai acabar com os órgãos de regulação ambiental, certas coisas não devem ser mexidas sob pena de piorar mais ainda o que já está ruim.

Recentemente o grupo que luta pela preservação do espaço publicou um vídeo mostrando que o lugar além de ter virado um lixão dos quartéis da Vila Militar, ainda corre risco de explosões, naquele dia já havia ocorrido um, o que prova que o terreno não foi limpo corretamente, e com o calor que vem fazendo na cidade, o risco de um acidente se torna cada vez maior.

A extinção do Ministério do Esporte serviu como um soco na boca do estomago de muita gente que defende o esporte como profissão mas que mama nas verbas públicas para se manter, pra mim o esporte deveria ser matéria obrigatória desde o ensino básico, o certo seria focar no esporte como atividade recreativa, que a competição vire um negócio a ser pago com recursos particulares.

O automobilismo de modo geral vem sobrevivendo, a F-Truck está tentando renascer dos escombros de sua divisão e posterior reunificação, há muito interesse e dinheiro em jogo, a F-Indy ainda tem algum interesse do público só que com o desmonte do núcleo de cobertura de esportes da Bandeirantes fica difícil pra eles terem mais espaço na grade de transmissão, a última baixa foi do Felipe Giaffone que vinha comentando com muita competência as provas da F-Indy, pelo lado da Globo a baixa foi o Lito Cavalcanti, decano jornalista de automobilismo que seguiu o caminho de Celso Itiberê também demitido.

O crescente desinteresse do jornalismo esportivo com o esporte a motor está empurrando essa categoria para opções alternativas de divulgação, lembrando que esse descaso não é de hoje, só tivemos alguma relevancia na cobertura jornalística na década de 80/90 graças as vitórias brasileiras na F1, com Piquet e Senna, depois disso foi só ladeira abaixo.

A SporTV parece que em 2019 terá a incumbência de levar nas costas a F1, a Stock e a F-Truck, que é o que hoje puxa a aundiência televisa do esporte a motor,e  por conseguinte os melhores patrocínios, mas que hoje é um verdadeiro tanque de tubarões com a nata do automobilismo nacional, com cerca de 2/3 do grid com experiência internacional sendo que muitos já sentaram até num F1.

A F-E ainda sem previsão de aterrissar no Brasil ganhou mais um piloto brasileiro, Felipe Massa irá engrossar as fileiras em busca de vitórias nessa que parece ser a única saída para o automobilismo, os carros elétricos.

Ainda existem núcleos duros que se mantém ativos, como o automobilismo no sul do país, especialmente o gaúcho, já que Santa Catarina só tem autódromos de terra e o Paraná está sucateando o seu principal autódromo, o AIC em Pinhais, vítima de uma ensandecida especulação imobiliária que há anos tenta destruir o equipamento esportivo.

 O caminho para o automobilismo continuar atingindo o seu público vai ser a internet, esse ano assisti muitas provas brasileira pela web, boas transmissões com narração de qualidade, principalmente Luc Monteiro com a CAT TV.

A menção honrosa do ano de 2018 nas transmissões do esporte a motor vem sendo a Fox Sports, que com um núcleo comandado pelo jornalista Flávio Gomes, junto com o competentíssimo Rodrigo Mattar e a enciclopédia do automobilismo Edgard Melo Filho vem fazendo um excelente trabalho cobrindo o esporte a motor mundial, mostrando que existe vida além da F1.

O resto é um deserto, estamos reduzidos a quase nada, teimosos que somos que ainda vemos o automóvel como um objeto de desejo e não como um aplicativo de celular, acreditamos que ainda haverá espaço nas novas gerações para o esporte a motor, apesar do crescente desinteresse pelo automóvel, talvez sejamos a última geração que ainda vá ver os grandes motores a explosão nas pistas, daqui a vinte anos serão todos elétricos, hibridos ou nem tenham rodas.

De resto começarei o ano com um lema: preparado para o pior, mas esperando o melhor.

Feliz 2019 a todos.






10/19/2017

Antes tarde...



Esse post vai ao ar uma semana após a prisão do Sr. Carlos Arthur Nuzmann, a acusação do juiz Marcelo Bretas é de que ele,e seu braço direito, Marcelo Gryner, teriam subornado autoridades esportivas para conseguir os votos  necessários à realização dos Jogos olímpicos no Rio de Janeiro.
No momento que escrevo, ele deve estar saindo pela porta da frente do presídio de Benfica, onde se encontram outros presos de várias investigações da PF, amparado por um Habeas Corpus expedido pelo STJ, e com a proibição de sair do país.
Não sei se isso significa algo, a prisão de Nuzmann e de Gryner apenas confirmaram aquilo que suspeitávamos desde 2012, essa prisão veio mais como uma tentativa do judiciário de prestar contas à sociedade. Se tivessem nos escutado quando começamos a questionar em 2004 que culminou na ação na justiça no ano seguinte, quando os pilotos fizeram uma ação contra o então prefeito Cesar Maia, contra o uso do terreno do autódromo para realização do Pan 2007, talvez nada disso teria acontecido, ou teria sido de forma diferente, mas ainda teríamos a pista, pelo menos.
É fato que o presidente do COB tem poderosas ligações com membros do executivo, legislativo e judiciário, com a conivência destes foram cometidos uma série de crimes de toda ordem, crimes esses que a maior parte continuará impune e, futuramente, prescrita. Para quem tem tanto poder e influência era questão de tempo para uma caneta amiga assinar um documento para que ficasse em liberdade.
Porque esse pessimismo diante de algo que deveria ser comemorado? É porque agora não adianta nada. O estrago foi feito, não só a questão da pista, mas os precedentes que abriu na administração pública, em nome dos grandes eventos (não esqueçamos da Copa e suas inúteis sedes padrão FIFA) gastou-se dinheiro a rodo, criou-se uma falsa prosperidade a reboque de obras superfaturadas e com data certa de entrega, milhões de brasileiros se iludiram com a promessa de lucro fácil e abundância de recursos,e hoje acabamos na mão de um governo que finge que foge da justiça fazendo concessões de toda a sorte para se safar, enquanto magistrados entogados  na Corte decidem quem deve ou não ser preso.
Tudo isso é uma grande hipocrisia, prender Nuzmann não resolve nada, ele sequer deixou a presidência do COB, talvez perca algum prestígio no COI, mas nada que vá deixá-lo sem sono, as barras de ouro encontradas na Suíça, independente de sua origem, não coadunam com os vencimentos de uma autoridade de uma instituição sem fins lucrativos, mas nada comparado aos rendimentos extraordinários que uma Oderbretch ou o patrimônio do Sr. Arthur, ou do Sr. Skin, e tantos outros empresários que surfaram a onda dos grandes investimentos superfaturados em nome dos eventos.
O Brasil atropelou sua história, e seu futuro é nebuloso, o que vemos à frente é um grupo de clowns brincando de política, ano que vem é eleição, temos um cenário caótico que vai de lideranças neopentecostais a ex-querda lulista , nenhuma delas com solução para o país, apenas com projetos de poder, e é claro, quando mais o povo estiver na pior, melhor pra eles, porque um povo desesperado, ainda mais o brasileiro, sebastianista e crédulo como o nosso, embarca em qualquer canoa furada que aparece.
Não estamos condenados a danação eterna por estarmos nas mãos dessas pessoas, na verdade eu acredito que uma vez exposto à luz da verdade, as pessoas mostram o que são, e a partir daí você tem que tomar um lado, ou apóia um escroque ou se volta contra ele, a questão é: quem apoiar?
A destruição da imagem de Nuzmann é conveniente para muita gente que o usou por muito tempo, e ele sabe disso, que em algum momento seria descartado em nome de alguém mais novo ou porque o modelo de investimento acabou, estamos vivendo um momento semelhante ao pós Copa de 1950, o país só conseguiu formar um time bom em 1958, antes disso nem se falava em futebol, agora imaginem o que acontece com o esporte brasileiro depois de dois fiascos simultâneos em menos de dois anos?
Claro que não se queria isso, do ponto de vista da festa, mas esporte profissional é tudo, menos competição esportiva, é bussines, é política, e tudo mais o que vocês podem imaginar,logo, não poderia se esperar outro resultado além do 7X1 da Alemanha e do desempenho pífio dos atletas brasileiros no Jogos.
Podem vir argumentar o que quiserem, o Brasil mal e mal tem tradição esportiva, alguma coisa no volei, futebol, basquete, e acabou, a ginástica olímpica pena pra se classificar bem nos eventos, a natação se vale de um ou outro atleta que ganha bolsa de estudos no exterior para nadar por alguma universidade, somos patéticos como potência esportiva, poderíamos ser muito mais do que somos se houvesse um projeto sério esporte nas escolas públicas, principalmente na periferia,mas esbarramos na falta crônica de interesse recursos humanos e materiais, e principalmente, na cretinice dos governantes que só olham pro esporte como moeda política na hora de pedir votos.
A culpa é de quem? Ora meus amigos, quem esteve à frente do COB durante 22 anos? Quem fechou os olhos à realidade do país e preferiu se refestelar nas poltronas de primeira classe a caminho dos regabofes internacionais bancados por outros líderes similares a ele? Claro, nem, poderia ser diferente, já que são todos feitos do mesmo estofo, hipócritas, vazios, venais, exploram os atletas como o novo gado, o novo escravo do século XXI, os novos gladiadores que irão entreter a arena formada por bilhões de pessoas sedentariamente sentadas em sofás ao redor do mundo em frente aos seus televisores, torcendo pela atleta de pernas bonitas ou ao deus negro que corre mais rápido que o vento, mas a maioria não tem a pálida idéia do que esses atletas passam para chegar onde chegaram.
Ao fim e ao cabo, preso ou solto, indiciado ou não, o Sr. Nuzmann é página virada da história, a folha seguinte está em branco, talvez nem seja escrita, talvez seja usada para outros fins. Não importa, daqui pra frente para se falar de esporte olímpico no Brasil primeiro terá que se passar a limpo tudo o que aconteceu nos últimos trinta anos , e posso garantir, isso está muito longe de começar a acontecer.
Quanto ao automobilismo, vai bem obrigado, aqui vem sobrevivendo como dá, como pode, praticamente desaparecido da TV aberta, sem divulgação, vivendo do, pelo e para o nicho de seus seguidores, mais nada. E a julgar pelo cenário internacional, em mais umas duas décadas será algo parecido como a corrida Londres-Brighton, uma curiosa diversão de ricos com seus veículos engraçados e barulhentos .
Ah sim, a F1, Indy, esqueçam, o Brasil queimou seu último cartucho com a geração de Massa, Castro Neves e Kanaam, agora, só um milagre coloca o Brasil de novo no grid dessas categorias com alguma chance de não ser apenas um mero coadjuvante, temos boas promessas, mas o esporte, ainda mais o automobilismo é um bussiness pesado, precisa de dinheiro, coisa que anda em falta por aqui.
Gostaria de estar menos amargo, mas tenho que ser realista para não me iludir, não há nenhuma promessa de remissão, apenas uma punição rasa, uma execração pública meia-boca e alguns milhões aguardando em segurança os dias de liberdade, nada mais, pra todos eles, e nós continuaremos aqui, vivendo de lembrar do passado, umas das poucas coisas que a internet nos permite, ter acesso a imagens e memórias dos tempos de glória.
Há futuro, sim, mas ele tem que ser construído hoje, com atos, não com promessas vazias, porque senão continuará apenas sendo um futuro sem dia e hora pra acontecer.

12/25/2016

Balanço de 2016, esperança para 2017?

Caros amigos do automobilismo, antes de tudo, Feliz Natal.

Nessa época em que fazemos reflexões e balanços sobre o que fizemos durante o ano, achei pertinente voltar a escrever no blog a respeito do, porque não? Futuro.

Desde 2012, quando o autódromo foi demolido, estamos em uma espera eterna pela resolução da lacuna da praça esportiva que tínhamos, importante não só para o automobilismo regional como também brasileiro, pela importância e visibilidade da cidade no contexto nacional e internacional.

Em agosto deste ano tirei a poeira do blog e escrevi a respeito do texto do amigo e jornalista Rodrigo Mattar sobre os quatro anos sem pista, ajudamos a colocar em evidência a questão da volta do autódromo, depois de termos realizado todos os compromissos internacionais que nossos governantes nos impuseram, governantes esses que estão pagando com o processos e prisões o que fizeram, mas esse não é assunto para escrever aqui.

Mas, como o tempo passa, em agosto ainda estávamos em plena corrida eleitoral pela prefeitura, a foto que coloquei naquele post mostrava a gravação de uma chamada do então candidato Marcelo Freixo à prefeitura, que diga-se de passagem, foi o único candidato na época que se dispôs a se inteirar do assunto, e mais, assumiu a luta pela defesa da Vila Autódromo e demais comunidades afetadas pela sanha das obras dos grandes eventos, mas isso é passado e essa história está amplamente documentada na web para quem quiser ler.

O ano de 2016 para mim foi particularmente atribulado, passe a primeira metade do ano tentando me estabelecer em Santa Catarina, foi bom porque conheci outra realidade de automobilismo regional que nunca tentamos por aqui, a velocidade na terra, mas como tive que retornar, hoje estou de volta a cidade outrora maravilhosa e a todos os seus problemas inerentes de maus governantes e más políticas públicas na gestão da máquina estatal.

A eleição em novembro foi um marco pela defenestração do PMDB do governo, infelizmente meu candidato não ganhou, mas quem ganhou não é do partido que governou hegemonicamente o estado e município por mais de uma década, e isso é importante.

Primeiro pelos sinais de que o novo prefeito está dando de se livrar dos pepinos da administração anterior, sendo um dos maiores o Parque Olímpico, obra fruto da oligofrenia de empresários da construção civil empurrados pelo superfaturamento corporativo e empréstimos oficiais irresponsáveis que criaram no lugar do autódromo um imenso calçadão de concreto com arenas inúteis sem demanda de uso, como preconizávamos desde 2006 quando construíram a Arena Multiuso e o Parque Maria Lenk e o extinto velódromo que teve seu piso de pinho siberiano caríssimo triturado e suas ferragens jogadas em algum lugar ermo e não sabido.

Pouco me importam as explicações oficiais que venham a ser expostas aqui ou qualquer outro meio de comunicação, em 2007, como cidadão, assisti a cidade gastar 5 bilhões de reais para nada, vimos a ascensão do prefeito Eduardo Paes que governou a cidade por dois mandatos, e, através deles viabilizou através de obras a realização dos grandes eventos, durante esse tempo a cidade ficou ao sabor de suas vontades, e uma delas foi destruir o autódromo em nome de um projeto de especulação imobiliária megalomaníaco.

A Barra da Tijuca sempre foi um lugar ermo da cidade, por isso o autódromo foi construido nesse local, uma região que não possui infraestrutura de transportes para atender uma grande massa de habitantes, daí sua baixa densidade populacional, em dez anos essa realidade foi revertida e se tornou a região que recebeu a maior quantidade de empreendimentos imobiliários, o que impactou negativamente a qualidade de vida da região, não foram feitos estudos de impacto ambiental, muito menos adequação dos serviços para uma nova demanda, resultado? Ruas engarrafadas a qualquer hora do dia, grandes distancias a serem percorridas para atendimento de serviços básicos, isso entre outro problemas.

Diante disso, quando o projeto foi apresentado, a bolha imobiliária estava prestes a explodir,  vitimas da especulação imobiliária, quem tinha vendido seu imóvel artificialmente valorizado não conseguia comprar outro em iguais condições, e isso foi se agravando ao longo do tempo, quanto mais perto dos Jogos, mais especulação e pressão sobre as áreas ainda acessíveis para construção de novos empreendimentos imobiliários. A realidade hoje é bem diferente, e a viabilidade desse projeto é incerta, diria improvável, ainda mais com a nova frente imobiliária inaugurada na cidade com a demolição da Perimetral  a implantação da Orla Conde. 

Ainda temos precariedade de transporte da região, que recebeu apenas o subdimensionado BRT como sistema de transporte de massa, e, segundo os idealizadores da obra, a elitização do lugar com o valor altíssimo das unidades, somada a crise econômica trazida pelos gastos e endividamentos desmesurados, chegamos ao ponto que chegamos, uma área que ninguém quer.

Quando o autódromo entrou em cheque, em 2006, publiquei e estou em posse de documentos que mostram a situação fundiária de terreno, pertencente ao governo estadual, mas a situação ficou nebulosa a partir da posse do atual prefeito, manobras de gabinete foram feitas para que a prefeitura tivesse direitos de intervenção na área, coisa que já havia sido tentado pelo prefeito anterior, mas que sofreu restrições dadas pela então governadora Rosa Matheus, que inclusive impediu a construção do estádio olímpico no setor norte do autódromo dando em troca o terreno das oficinas de trens do Engenho de Dentro, isso ajudou a manter a esperança de conseguir se reestabelecer um traçado de mais de 3000mts.

Tudo isso nos leva aqui, dezembro de 2017, estamos a uma semana da posse de um novo prefeito, desvinculado do atual eixo de poder, e que tem figuras proeminentes como o ex-governador e o ex-presidente da Câmara dos Deputados presos e sendo processados por receber propina e por malversação de recursos públicos, sendo que a maior parte desses processos ainda não é sobre as obras dos grandes eventos, talvez tenhamos que esperar mais algumas semanas para que algumas figuras públicas tenham seu foro privilegiado revogado com o fim do mandato, para que mais prisões aconteçam e aí sim a verdadeira história comece a vir à tona.

Por parte das empreiteiras, a maioria está sentando no banco dos réus e tendo seus diretores presos, e, em uma estratégia de sobrevivência, estão fazendo delações entregando políticos e até mesmo outros empresários que participaram do butim do erário público, com isso dezenas de nomes estão sendo arrolados nos processos, e, dificilmente, a classe política brasileira passará impune a esse verdadeiro tsunami que está varrendo o país.

A parte que nos interessa dessa história, e é nisso que eu quero chegar, é que desde o anúncio da destruição do autódromo para dar lugar às arenas, sempre fomos informados que o governo teria uma verba e um lugar para construir uma nova pista, e uma parte da comunidade automobilística carioca, inclusive os dirigentes esportivos, se agarraram a essa esperança, já se foram quatro anos, e incrivelmente eles continuam por aí alegando as mesmas coisas, aguardando e aguardando, como se alguém ainda acreditasse nisso.

Mas hoje a realidade mudou. Dos planos feitos há mais de uma década em cima de projeções de demanda reprimida de imóveis na cidade e possibilidade de financiamento público e privado dessas obras, caímos na situação que não temos hoje entes privados que aceitem custear a manutenção de um equipamento de uso público em troca de exploração imobiliária de uma região sobrecarregada de imóveis vazios que vieram no rastro do lucro fácil dos Jogos, como ocorreu em alguns casos em que pessoas alugaram seus imóveis para participantes dos Jogos devido à proximidade com o local dos eventos, em nome dessa possibilidade de lucro fácil se investiram bilhões de reais na construção de condomínios inteiros que hoje estão vazios à espera de compradores, imóveis de pequeno porte, em prédios de alto adensamento populacional (aliás o prefeito vivia dizendo que se deveria adensar a população para otimizar o uso do espaço público, esquecendo-se que o adensamento populacional resulta na proporção inversa na degradação da qualidade de vida).

O que nos leva a situação que me levou a escrever no dia de Natal.

O Parque olímpico hoje está de posse de fato e de direito do governo federal, o verdadeiro credor das empresas que construiram as instalações, empresas essas em sua maioria investigadas ou em vias de, talvez a blindagem que ainda se faz nas incorporadoras imobiliárias se dê por alguma questão política, mas que irá cair diante da inadimplência dos pagamentos dos empréstimos feitos para a construção, e com isso, já que o espaço será reconfigurado como área de lazer para a população, porque não reconstruir o autódromo nos moldes de uma pista como a de Sochi, na Rússia, que foi construído dentro das instalações da olimpíada de inverno?

A proposta é simples e cristalina: por que perder tempo com polêmicas e licenciamento ambiental em uma área degradada e perigosa, sem atrativos turísticos e sem infraestrutura hoteleira para receber visitantes, se podemos ter uma pista nova em um local perfeitamente conhecido e com plenas condições de absorver um fluxo de visitantes na ordem de 100 mil pessoas para assistir um evento de alto valor agregado, seja no aspecto profissional como no econômico?

Projeções indicam que só será possível ter viabilidade econômica para se construir novas unidades habitacionais naquela região em no mínimo vinte anos, então, se podemos ter hoje, através do governo federal, a posse do terreno e construir um traçado para receber provas nacionais, e porque não, provas internacionais, porque não fazê-lo, sairia mais barato que usar um terreno virgem, que poderia sofrer as mesmas pressões imobiliárias no futuro, ainda mais sendo público e em uma área que está sendo preparada para no futuro servir como expansão imobiliária para pessoas de baixa renda que poderão acessar a Barra via Transolimpica/BRT.

É viável economicamente? Sim, existe demanda para a utilização de uma pista de corridas, existem categorias que podem correr aqui, o automobilismo regional é uma força econômica que pode trazer dinheiro para a cidade, basta haver interesse político para isso.

A hora é essa, a partir de janeiro de 2017 teremos um novo prefeito totalmente desvinculado do eixo do poder atual, que poderá acolher essa idéia em nome de um retorno rápido, não só do dinheiro investido, como também da imagem da cidade desvinculada dos grandes eventos e seu legado nefasto.

Ao grupo Pró-autódromo, FAERJ e CBA, vamos nos mexer e tentar cavar alguma coisa, não aceitem não como resposta, as desculpas terminaram, a hora é essa, vamos retomar a nossa casa.

Um bom Ano Novo para todos.