É meus amigos, o novo ano chegou, e com más notícias, nem tanto em relação ao autódromo carioca, mas em relação ao que eu já havia dito aqui tempos atrás, que a atitude da CBA em permitir o esbulho de Jacarepaguá iria dar munição para fazerem algo parecido em outros lugares, e que a próxima vitima seria Interlagos.
Aí está a prova, a SP Turis, gestora do autódromo, aumentou em 1600% os valores de locação de Interlagos, um absurdo absoluto, mas que na cabeça dos atuais governantes paulistas é plausível a partir do momento que o prefeito rompeu com seu partido de origem e resolveu criar um novo partido, e sem dinheiro busca de alguma forma fazer caixa para tentar uma nova candidatura. É uma briga política, sem dúvidas, mas que poderá acabar com o automobilismo brasileiro, pois São Paulo hoje é o principal pólo do esporte a motor que nós temos.
Os paulistas estão desesperados, não querem que Interlagos tenha o mesmo destino de Jacarepaguá, mas eu sempre soube que isso seria assim, a partir do momento que a prefeitura paulistana achasse um substituto mais barato e vantajoso ao autódromo mais antigo do país, imediatamente seriam feitos todos os esforços para esvaziar Interlagos e dar outa destinação ao terreno.
Culpados? Muitos, a começar pela CBA que autorizou aquela porcaria de circuito de rua no Anhembi, passando por cima de seus próprios estatutos que não permitiam que uma pista de rua fosse construída em uma cidade que já tivesse um traçado permanente, mas a fome de dinheiro falou mais alto, e mesmo com um evento claramente mal preparado, em que uma simples chuva mais forte inviabilizou a corrida, a CBA manteve a autorização de construção da pista, e até que não demorou muito, menos de um ano e a prefeitura paulistana já fez as contas que manter uma pista provisória para um evento anual é mais negócio do que manter um autódromo permanente por um ano inteiro.
Afinal de contas eles tem a F-Indy, tecnicamente uma categoria inferior à F1, mas tem "brasileiro correndo", então interessa à grande mídia, ela também é responsável pela condenação de Interlagos, pois ao dar destaque, visibilidade, comemorando o novo traçado de corridas da cidade, condenou Interlagos a um perigoso ostracismo.
A F1 acontece uma vez por ano, e a cada ano atrai menos interesse do público, porque "não tem brasileiro vencendo", logo, perder a F1 não é grande problema, pois se troca uma categoria pela outra com o bônus de se ter uma estrutura que será montada e desmontada todo ano, abrindo margem a todo tipo de falcatrua nas licitações de serviços a serem prestados, tudo com beneplácito da mídia é claro.
E temos outro culpado. Quem? O público é claro, há anos as arquibancadas de Interlagos só veem público de verdade quando é categoria "grande", tipo Stock e F-Truck, e as pessoas só vão porque anuciam na TV, ou é porque dão um bonezinho e camiseta na entrada, ninguém vai porque gosta de ver corrida, vão porque ganham alguma coisa. Mas nos regionais ninguém vai, é como se não existisse, mesmo gratuitamente as arquibancadas ficam vazias, aqui no Rio é raro ver "testemunhas" assistindo, em São Paulo ainda é pior, porque aqui temos a desculpa da praia, lá nem isso, e o público não vai do mesmo jeito.
Estou cansado de ver isso, se o automobilismo nacional tiver que morrer, no estágio que está, que morra. E renasça em outros moldes, com gente realmente dedicada ao esporte e não aos seus pseudo-lucros,. Que haja os pilotos-pagantes que descem de helicóptero no autódromo no sábado e que só sabem qual é o seu carro porque está escrito o nome na carenagem, eles são o mal necessário, mas que venham também categorias acessíveis e pilotos oriundos de outros estratos sociais, pequenos empresários, profissionais liberais, donos de oficinas, enfim, que se universalize o automobilismo de competição e que também ele se torne um momento de lazer, que haja a promoção dos eventos de forma séria, que as pessoas se sintam estimuladas a ir não por causa de um boné ou camiseta, mas porque é um evento para a família, de dia inteiro, de ir ao autódromo e ter um espaço para uma diversão saudável.
No mundo inteiro o automobilismo é um dos indicadores do grau de excelência de uma sociedade, dirigir bem um automóvel é um ato de cidadania, mas o que vemos nas ruas é a barbárie, a dissociação completa do ato de dirigir com responsabilidade, o automobilismo nacional poderia ajudar a diminuir esse índices, mas o que temos? Já viu algum piloto brasileiro em campanha pela segurança do trânsito? Já viu algum piloto vir espontaneamente na TV ou em alguma entrevista falar dos acidentes nas estradas? Não, a falta de reconhecimento de sua própria atividade em prol da sociedade mostra o quanto eles se afastaram de seu público.
Antigamente dizia-se que quem queria correr que fosse para um autódromo, lá dentro, com regras e riscos controlados ele teria a chance de mostrar suas reais habilidades, muito asnos volantes tiveram a dura lição de ver que na pista eles não eram nada e afinaram, hoje temos jovens endinheirados que usam as estradas brasileiras para correrem com seus super-carros importados em um exibicionisno inútil de colocar a vida dos outros em perigo a troco de nada, só pela satisfação pessoal, e principalmente a falta completa de cidadania e respeito ao próximo.
Nossa sociedade está doente, e dá mostras disso em vários aspectos, na mídia que elege um reality show e um esporte de luta como modelos de imagem que o país deve seguir, e as pessoas aceitam, uns poucos se revoltam nas redes sociais, mas na verdade é que individualmente muitos são inteligentes e bem informados, mas enquanto povo se comportam bovinamente como uma grande massa de gnus indo para um rio cheio de crocodilos.
Interlagos está sofrendo o que nós assistimos por quase uma década: descaso, desprezo e falta de respeito. E é apenas o início, não vejo a CBA como interlocutora porque eles mesmos em seu manifesto à imprensa se curvam cheios de salameleques ao prefeito, admitem claramente que estão nas mãos da prefeitura e quem nem as 8 mil pessoas que vivem direta e indiretamente do automobilismo em São Paulo são motivos suficientes para a prefeitura voltar atrás em seu reajuste absurdo que tem claramente como objetivo sucatear o autódromo.
Alguns meses atrás os jornalistas que cobriam as últimas etapas do calendário nacional em Interlagos reclamavam do abandono da pista, com mato alto e zebras rachadas, algo inimaginável, pois a pista tinha recém-recebido o GP Brasil de F1, mas isso era apenas a ponta do iceberg que estava por vir, e veio, na forma desse aumento estúpido que nenhuma categoria brasileira é capaz de arcar sozinha.
Apesar de tudo e de todos, o momento é de união, de deixar de lado os egos, os interesses econômicos, as intrigas, se o automobilismo brasileiro não se unir agora não só em torno da questão de Interlagos, mas também de Jacarepaguá, podem ter certeza que o automobilismo será apenas uma lembrança daqueles que o fizeram e que o futuro nas pistas será algum traçado de terra no sul do país ou então sentado em frente a um TV vendo F-Indy e F-1.
Quando Jacarepaguá foi destroçada em 2005 muitos paulistas vieram aqui no blog pisar sobre o cadaver insepulto, eu alertei que eles seriam os próximos. Agora é inexorável, foi aberto o precedente, e mesmo que a prefeitura recue agora eles terão feito seu teste de força, para tentar novamente mais tarde, aproveitando quando o automobilismo brasileiro estiver mais enfraquecido ainda, e enquanto este esporte estiver representado por uma instituição que vive de merchandasing e licença de piloto ele jamais será respeitado como deve ser, há muito a ser feito, a hora é de mudar, de unirmos os pilotos brasileiros não em torno do autodromo carioca ou paulista, mas em torno do esporte a motor brasilerio,.
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